Cidade
Historiadora de Candiota participa de projeto aprovado na Lei Rouanet para preservar acervo de José Anélio Saraiva
por Melissa Louçan
Uma historiadora de Candiota está à frente de um projeto aprovado na Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) para preservar e difundir o acervo de José Anélio Saraiva (1912–2015), pesquisador autodidata e pioneiro nos estudos sobre o potencial petrolífero da Bacia de Pelotas. A iniciativa prevê a organização, inventário e digitalização do Fundo José Anélio Saraiva, além de pesquisa histórica, exposição cultural, catálogo e ações de educação patrimonial.
Historiadora e mestra em Antropologia, Rosilene Oliveira se aproximou do acervo ainda durante a graduação em História pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Por volta de 2011, passou a direcionar suas pesquisas para a importância dos acervos documentais na construção da memória e da história. Na época, foi estagiária do Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas (IHGPEL), onde participou de atividades de higienização e acondicionamento de documentos e teve contato com diferentes fundos preservados pela instituição. Foi nesse contexto que conheceu o Fundo José Anélio Saraiva, que também se tornou um dos recortes de sua pesquisa de graduação.
“Por isso, existe uma relação de longa data com essa documentação. Anos depois, retornar a esse acervo por meio de um projeto mais amplo de preservação, inventário, digitalização, pesquisa e difusão representa, para mim, a continuidade de um trabalho iniciado ainda na universidade”, explica Roselaine.
O projeto “Inventário da Memória: Preservação, Educação Patrimonial e Exposição Cultural do Acervo Fundo José Anélio Saraiva” foi aprovado pelo Ministério da Cultura, no âmbito do Programa Nacional de Apoio à Cultura (PRONAC nº 265313), com publicação no Diário Oficial da União em 22 de julho de 2026. Apresentado pela Tramas Patrimônio Cultural, em parceria com o IHGPEL, o projeto entra agora na fase de captação de recursos, que segue até dezembro deste ano. A execução está prevista para ocorrer durante 24 meses, entre janeiro de 2027 e dezembro de 2028.
Um pesquisador à frente do seu tempo
Natural de Lavras do Sul e um dos fundadores do IHGPEL, José Anélio Saraiva dedicou grande parte da vida aos estudos sobre geologia e recursos minerais. Décadas antes dos avanços tecnológicos que permitiriam novas descobertas na margem continental brasileira, ele já defendia que a Bacia de Pelotas apresentava elevado potencial petrolífero.
Com base em seus estudos, Saraiva apontava semelhanças entre a geologia da margem sul do Brasil e formações encontradas na Namíbia e na África do Sul. Anos mais tarde, descobertas realizadas pela Petrobras corroboraram a hipótese defendida pelo pesquisador, reforçando o caráter pioneiro de suas investigações.
Ao longo da trajetória, Saraiva também manteve correspondência com autoridades públicas, entre elas os presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart e Fernando Henrique Cardoso, defendendo a ampliação das pesquisas sobre o potencial petrolífero e mineral do litoral sul do Rio Grande do Sul.
O Fundo José Anélio Saraiva, sob a guarda do IHGPEL desde 2011, reúne correspondências, manuscritos, anotações de pesquisa, mapas, registros técnicos, fotografias e outros materiais produzidos ou reunidos pelo pesquisador. A quantidade exata e a tipologia dos documentos ainda serão dimensionadas durante o inventário previsto no projeto.
Além de contabilizar os itens, a etapa deverá permitir compreender as relações entre os diferentes registros e acompanhar como Saraiva construiu suas pesquisas ao longo de décadas. Para Roselaine, o valor do acervo não está necessariamente concentrado em um único documento, mas na possibilidade de analisar os materiais de forma articulada.
“Quando analisamos correspondências, anotações, mapas e manuscritos de forma articulada, conseguimos acompanhar a construção de suas pesquisas ao longo do tempo e compreender melhor o percurso de um pesquisador que dedicou grande parte de sua vida ao estudo da região”, afirma.
Uma das potencialidades do projeto é justamente a possibilidade de identificar documentos e informações que ainda não receberam estudos aprofundados. Segundo Roselaine, o acervo reúne registros relacionados às pesquisas de Saraiva sobre a Bacia de Pelotas que podem ser explorados por pesquisadores de diferentes áreas.
À medida que avançarem as etapas de inventário, organização, pesquisa e digitalização, poderão ser estabelecidas novas relações entre os documentos e identificados materiais ainda pouco estudados. O projeto, portanto, não pretende apenas preservar o que já é conhecido, mas criar condições para novas perguntas, interpretações e pesquisas.
Após a digitalização, a documentação deverá ser disponibilizada por meio do site do IHGPEL. Pesquisadores, estudantes e demais interessados também poderão consultar presencialmente o acervo na instituição, mediante agendamento e conforme as normas de atendimento e preservação documental.
A primeira etapa será desenvolvida em Pelotas, onde o Fundo está preservado. No entanto, há interesse em ampliar futuramente a circulação dessa história. Lavras do Sul, cidade natal de Saraiva, é apontada como um local de especial interesse para receber, em uma etapa posterior, a exposição e ações de educação patrimonial, a partir da construção de novas parcerias.
Para viabilizar a iniciativa, empresas tributadas pelo Lucro Real podem destinar até 4% do Imposto de Renda devido ao projeto. Pessoas físicas que fazem a declaração no modelo completo podem destinar até 6%. Os valores são deduzidos do Imposto de Renda devido, conforme as regras da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
A captação segue aberta até dezembro de 2026. O apoio deverá permitir a execução das ações de preservação, inventário, digitalização, pesquisa e difusão previstas no projeto.
“O projeto busca justamente construir essa ponte: preservar a memória, ampliar o acesso e criar condições para que novos conhecimentos possam surgir a partir desse patrimônio documental”, resume Roselaine.

