Cidade
Entre um varal e centenas de marmitas, a solidariedade encontra espaço em Bagé
por Miquéli Romero
Em uma das esquinas mais movimentadas de Bagé, um gesto simples chama a atenção de quem passa. Entre as árvores no canteiro da Rua Barão do Triunfo, um varal improvisado exibe mais do que roupas: revela uma corrente silenciosa de solidariedade que há anos aproxima quem pode doar de quem precisa receber.
Duas placas resumem a proposta: “Deixe, se não usar mais” e “Leve, se for usar”. Não há filas, cadastro ou qualquer tipo de controle. Apenas confiança.
A iniciativa surgiu durante a pandemia, quando uma moradora decidiu colocar algumas peças de roupa à disposição da comunidade. O que começou como uma ação para enfrentar um momento de crise permaneceu ao longo dos anos e hoje funciona durante todas as estações.
Sem querer ter o nome divulgado, a idealizadora conta que o varal nunca fica vazio por muito tempo. Enquanto algumas pessoas chegam para deixar roupas, outras encontram ali uma oportunidade de vestir a família sem precisar pedir ajuda. “São muitas as pessoas que precisam. Eu me sinto muito feliz por poder ajudar. É uma coisa que faz mais bem para mim do que para quem precisa”, afirma.
Segundo ela, as roupas masculinas e infantis continuam sendo as mais procuradas e, ao mesmo tempo, as menos doadas. “São roupas que têm bastante demanda e são justamente as que menos aparecem", conta a moradora.
O funcionamento é simples: quem deseja colaborar pode apenas pendurar as peças no varal. Quem necessita, leva o que precisa. Mas essa não é a única demonstração de solidariedade presente na mesma rua.
Trabalho voluntário
Poucos metros adiante, entre a Barão do Triunfo e a Rua Rodrigues Lima, funciona a sede da ONG De Janeiro a Janeiro. Desde fevereiro de 2020, o grupo mantém um trabalho contínuo de assistência a pessoas em situação de vulnerabilidade.
Idealizada pelas voluntárias Bruna de Lima e Fernanda Machado, a organização distribui todas as sextas-feiras cerca de 120 marmitas destinadas principalmente à população em situação de rua, trabalhadores da reciclagem e famílias atendidas pela entidade.
Além da alimentação, uma vez por mês é realizado o chamado “Sábado da Família”, quando são entregues cestas básicas, roupas e outros itens essenciais às famílias cadastradas. “Esse sábado é dedicado às famílias cadastradas conosco e acontece sempre que recebemos 30 cestas básicas da Casa da Caridade Inácio Daniel, uma ONG de outra cidade que nos auxilia. Hoje temos mais de 60 famílias cadastradas e fazemos um revezamento para que todas sejam atendidas”, explica Bruna.
A ONG é mantida por meio de campanhas solidárias, rifas, doações da comunidade e da dedicação dos próprios voluntários. Atualmente, cerca de 80 pessoas integram o grupo, divididas entre equipes responsáveis pela cozinha, estoque, campanhas e entregas.
Apesar do número expressivo, Bruna explica que menos da metade participa das ações presenciais, enquanto outros ajudam financeiramente, com doações ou na divulgação do trabalho.
Sem vínculo político ou religioso, a entidade afirma que seu compromisso é exclusivamente com a prática da solidariedade. “Não temos vinculação política ou religiosa. O que nos move é a prática da caridade e o amor ao próximo, sem julgamentos, apenas auxiliando quem mais precisa com alimentos, roupas e cobertas." comenta.
Para preparar as refeições distribuídas semanalmente, a ONG utiliza aproximadamente 15 quilos de arroz, cinco quilos de feijão, duas garrafas de óleo e cerca de dez quilos de proteína. Também são montados kits com alimentos e produtos de higiene, distribuídos em pontos estratégicos na cidade. "Um dos lugares que o pessoal da entrega leva esses kits é na UPA 24h, onde pessoas ficam horas e muitas delas não têm condições de comprar um lanche, então sempre que há disponibilidade desses kits, nós oferecemos", complementa Fernanda.
Em uma das equipes da cozinha, está a Patrícia Rocha, voluntária há 3 anos, ela conta que trabalha no ramo de alimentação e um dia resolveu ajudar. "Depois que fui nesse dia, não consegui mais parar. Me sinto realizada, quem recebe se sente muito feliz, mas com certeza, nós recebemos muito mais, nos sentimos muito mais realizados, felizes em poder ajudar" comenta Patrícia.
Histórias como essas mostram que, muitas vezes, a solidariedade não está em grandes campanhas, mas em gestos cotidianos. Um varal com uma peça de roupa, uma marmita preparada por voluntários ou uma cesta básica entregue a uma família podem representar muito mais do que uma ajuda material: tornam-se sinais de esperança para quem enfrenta dificuldades.
Quem desejar contribuir com o trabalho da ONG De Janeiro a Janeiro pode entrar em contato pelo WhatsApp (53) 99924-4454. Já o varal solidário permanece disponível diariamente na esquina das ruas Barão do Triunfo e Félix da Cunha, recebendo doações de roupas para adultos e crianças.

