Projeto & Construção
Museu Dom Diogo de Souza: um monumento da Sociedade Portuguesa de Beneficência que guarda a história de Bagé
por Viviane Becker
No mês em que Bagé comemora orgulhosamente os seus 215 anos de fundação, enaltecemos uma de suas maiores e mais vistosas riquezas: o seu patrimônio histórico e arquitetônico, que figura entre as maiores belezas do Estado do Rio Grande do Sul.
Pujante e majestoso, o prédio que abriga o Museu Dom Diogo de Souza impõe-se na paisagem urbana com a grandeza de uma fortaleza do passado, onde cada detalhe construtivo narra a evolução de uma comunidade e celebra o direito à memória.
Um triunfo estético
Olhar para a fachada do Museu Dom Diogo de Souza é fazer uma viagem direta às referências estéticas europeias do século XIX. Idealizado originalmente pela Sociedade Portuguesa de Beneficência para abrigar um hospital, em 9 de julho de 1871, em um terreno doado pelo governo provincial. Inaugurado em novembro de 1878, o prédio reflete em seus traços as transformações de sua época, resultando em uma harmoniosa transição de estilos que encanta arquitetos e historiadores.
Com linhas predominantemente neoclássicas, o edifício evoca a grandiosidade do célebre Palácio de Queluz, em Portugal. De acordo com pesquisas publicadas pela arquiteta Adriane Alves, a simetria imponente é coroada, na parte central do frontispício, por um frontão adornado com um escudo português barroco. O acesso ao prédio é um espetáculo à parte: as colunas e os balaústres da escadaria pertencem à ordem coríntia, enquanto o portão de entrada exibe o refinamento barroco através da reprodução de conchas esculpidas. Em meio aos degraus, o patamar que se abre para o pátio da portaria saúda os visitantes com um busto do poeta Luis Vaz de Camões, uma herança viva das raízes lusitanas da instituição.
O equilíbrio estético da fachada se completa com as janelas guilhotina, de caixilhos pequenos e vergas retas, típicas da arquitetura colonial e clássica. Essa composição fachada-escadaria, concluída em sua totalidade no ano de 1914, confere ao prédio uma proporção áurea que une solidez e elegância, justificando o seu tombamento municipal em 1975.
CRONOLOGIA ARQUITETÔNICA E HISTÓRICA
- 1871 | Lançamento da Pedra Fundamental (Soc. Portuguesa) |
- 1878 | Inauguração do edifício
- 1893 | Ocupação militar (Enfermaria na Rev. Federalista) |
- 1914 | Conclusão definitiva da fachada e escadaria |
- 1921 | Casa de Saúde do Dr. Mário Araújo (até 1940) |
- 1975 | Restauro municipal, tombamento e chegada do Museu |
- 2004 | Modernização e restauro via Lei Rouanet |
O guardador da memória
Antes de se tornar o santuário da história bajeense, a estrutura física do prédio foi testemunha ocular de episódios marcantes. Embora projetado para ser um hospital de assistência aos imigrantes portugueses, suas salas abrigaram diferentes realidades. Entre 1893 e 1898, foi alugado ao Exército Nacional para servir como Enfermaria Militar durante os tensos anos da Revolução Federalista.
Mais tarde, em 1921, o espaço ganhou vitalidade médica sob a tutela do Dr. Mário Araújo, transformando-se em uma renomada Casa de Saúde até 1940. O edifício ainda serviu de aquartelamento e, posteriormente, voltou às funções hospitalares sob a locação do Dr. Cândido Gaffrée, até ser desativado em 1968. Cada uso e reforma preparou o imponente casarão para a sua missão mais nobre: abrigar a história de Bagé.
A história preservada
Se a arquitetura do prédio impressiona por fora, o interior do Museu Dom Diogo de Souza pulsa como o verdadeiro coração histórico da cidade.
Fundado originalmente em 20 de setembro de 1956 pelo historiador Tarcísio Taborda, com o apoio de seu pai, Átila Taborda, o museu encontrou sua morada definitiva nesse majestoso cenário em 22 de março de 1975, após um minucioso processo de restauração liderado pelo município.
Hoje, o museu abriga um acervo monumental: são mais de 7 mil artefatos e cerca de 4 mil documentos. Caminhar por seus corredores e salões de pé-direito elevado é deparar-se com uma singularidade narrativa impressionante. O acervo dispõe de vestuários de época, móveis, utensílios domésticos, objetos pessoais e armamentos que recontam as dores e glórias das Revoluções Farroupilha e Federalista. A pesquisa ganha escala extraordinária através de uma fototeca com mais de 100 mil documentos fotográficos e uma hemeroteca que preserva 320 edições diferenciadas de periódicos.
Cada peça exposta funciona como história condensada. O museu acolhe as contradições, as alegrias, as lutas e as memórias, tanto materiais quanto imateriais, da comunidade, cumprindo sua função primordial de educar, conscientizar e dar à população o legítimo direito à sua própria identidade social.
FAT/Urcamp preservando o passado e garantindo o futuro
A sobrevivência e a pulsação de um patrimônio dessa magnitude não acontecem por acaso. A ligação histórica com a Fundação Attila Taborda (FAT), atual mantenedora e ligada à Urcamp é o pilar que sustenta essa engrenagem cultural.
Essa união começou a desenhar-se ainda em 1969, quando o museu foi vinculado à Fundação. Foi através desse convênio e do esforço contínuo da instituição de ensino que o museu pôde ser transferido para o prédio da Sociedade Portuguesa, garantindo sua salvaguarda técnica, curatorial e administrativa até os dias de hoje. A gestão do Museu é feita pelas professoras Cármen Barros e Maria Luisa Pêgas.
A conexão com a Urcamp eleva o museu além do status de seu depósito do passado. Sob a coordenação e os braços acadêmicos da instituição, o espaço fomenta a pesquisa científica, a extensão comunitária e cumpre um papel pedagógico indispensável para as novas gerações.
Visitar o Museu Dom Diogo de Souza é, um exercício completo de apreciação. É encantar-se com o rigor de sua arquitetura neoclássica e barroca, emocionar-se com a riqueza de suas coleções e reconhecer o valor da educação superior na manutenção da nossa herança cultural. Celebrar os 215 anos de Bagé é também reconhecer na imponência desse prédio a fortaleza que nos conecta com o ontem, nos situa no presente e nos projeta para o futuro.

