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Santa Casa aponta déficit superior a R$ 1 milhão por mês e cobra união regional para garantir sustentabilidade dos serviços

Em 17/06/2026 às 17:56h

por Melissa Louçan

Santa Casa aponta déficit superior a R$ 1 milhão por mês e cobra união regional para garantir sustentabilidade dos serviços | Cidade | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Dados foram apresentados na tarde de quarta-feira Foto: Márlon Posqui

A direção da Santa Casa de Caridade de Bagé apresentou, na tarde de quarta-feira, um panorama detalhado da situação financeira da instituição e dos desafios enfrentados para manter serviços considerados estratégicos para a região. Durante coletiva de imprensa, representantes do hospital detalharam receitas, despesas, dívidas acumuladas e iniciativas em andamento para buscar novos recursos junto aos governos estadual e federal. As informações foram apresentadas pelo vice-provedor, Carlos Eduardo dos Santos, pelo gerente administrativo, Aires Prado, pelo responsável pelas Relações Institucionais, Rafael Amaral, e pelo procurador jurídico Anderson Ceolin.

Segundo os dados divulgados, a Santa Casa possui uma receita média mensal próxima de R$ 6,9 milhões, enquanto as despesas superam R$ 8,1 milhões. O resultado é um déficit superior a R$ 1,2 milhão por mês, cenário que, conforme a administração, vem se agravando em razão do aumento dos custos assistenciais e da defasagem dos repasses destinados ao atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Ao abordar os atrasos nos pagamentos aos profissionais da saúde, Carlos Eduardo destacou que a situação não significa que médicos e demais prestadores estejam há oito meses sem receber. Segundo ele, o atraso já existia quando a atual gestão assumiu a instituição e chegou a ser reduzido ao longo dos anos, mas voltou a crescer diante das dificuldades financeiras. “Se em março de 2020 havia um atraso de oito meses e hoje, em junho de 2026, temos um atraso de oito meses, significa que, ao longo desses 74 meses, a classe médica recebeu 74 meses de pagamentos”, afirma.

Os números apresentados pela administração apontam que alguns dos principais serviços mantidos pela instituição operam com déficit permanente. Conforme os dados divulgados, o Pronto-Socorro registrou resultado negativo superior a R$ 300 mil em um único mês analisado pela gestão. Já a UTI e o bloco obstétrico também apresentam custos significativamente superiores aos valores recebidos pelos atendimentos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com déficit mensal de R$ 825 mil e R$ 463 mil, respectivamente. 

Ao detalhar as contas do hospital, o gerente administrativo, Aires Prado, explicou que a instituição consegue equilibrar mensalmente as despesas apenas porque parte dos pagamentos aos profissionais da área médica acaba sendo postergada. “Com recursos próprios da Santa Casa, temos capacidade de pagar entre 40% e 45% da folha médica. É isso que permite fechar as contas mês a mês”, afirma.

Segundo o vice-provedor, a Santa Casa tem mantido diálogo permanente com o Ministério Público para garantir a continuidade dos atendimentos. Ele informou que as escalas do bloco obstétrico vêm sendo apresentadas semanalmente ao órgão, como parte das medidas adotadas para monitorar a capacidade de funcionamento do serviço diante da redução no número de profissionais. A instituição também tem recorrido a médicos de outras cidades para complementar os plantões e evitar interrupções no atendimento.  

O vice-provedor ressaltou que a dificuldade não está relacionada apenas aos recursos financeiros. “Nesse caso, não é por falta de recurso financeiro. Há uma carência de obstetras no Brasil inteiro e nós temos dificuldade de trazer profissionais para cá”, declara.

Questionado sobre os impactos práticos da crise para os usuários do hospital, Carlos Eduardo afirmou que alguns serviços já sofrem reflexos das dificuldades enfrentadas pela instituição. Segundo ele, a redução ocorre principalmente em atendimentos ambulatoriais, especialmente em especialidades médicas, mas não atinge os setores considerados estratégicos para a assistência regional. “Não trabalhamos com a hipótese de fechamento do pronto-socorro. De nenhum serviço”, afirma o dirigente ao ser questionado sobre a possibilidade de interrupções permanentes de atendimento.

Segundo ele, a situação do bloco obstétrico foi tema de reuniões conduzidas pela Secretaria Estadual da Saúde envolvendo os municípios atendidos pelo serviço. De acordo com Santos, cinco dos seis municípios da região concordaram em participar de um consórcio de apoio ao custeio da estrutura. Bagé teria sido o único a não aderir à proposta, segundo o vice-provedor: “Não é uma obrigação legal, mas é uma escolha”, afirmou o vice-provedor ao comentar a decisão. Conforme os dados apresentados pela instituição, cerca de 67% da demanda do bloco obstétrico é proveniente de Bagé.

Ao tratar da relação com o município, Carlos Eduardo ressaltou que a Santa Casa não busca estabelecer um confronto com a administração municipal. “Em nenhum momento houve enfrentamento por parte do hospital junto ao município. O que o hospital fez foi pedir ajuda, pedir auxílio”, declara.

A questão financeira envolvendo o Executivo municipal também foi abordada pelo procurador jurídico Anderson Ceolin. Segundo ele, há valores em discussão judicial referentes a atendimentos assistenciais, repasses previstos em legislação municipal e à utilização do imóvel da Escola Bidart. “Hoje a Prefeitura deve ao hospital cerca de R$ 6,6 milhões, considerando débitos assistenciais, repasses previstos em lei e a utilização do imóvel da Escola Bidart”, afirma.

Além do cenário atual, a direção apresentou alternativas que considera fundamentais para a recuperação financeira da instituição. Uma delas é um pedido de ressarcimento relacionado à defasagem da tabela SUS entre 2018 e 2024. De acordo com a administração, os cálculos apontam para aproximadamente R$ 59 milhões. Segundo Santos, o pleito já foi reconhecido pelo governo do Estado e pelo Ministério da Saúde, mas ainda depende de formalização para que os recursos sejam liberados.

Outra reivindicação envolve a revisão do teto MAC (Média e Alta Complexidade), mecanismo que define parte dos recursos repassados aos hospitais que atendem pelo SUS. A Santa Casa sustenta que teria direito a um incremento anual de aproximadamente R$ 25,5 milhões, o que representaria um aumento superior a R$ 2 milhões por mês nos repasses recebidos.

Para a provedoria, a liberação desses recursos teria impacto direto na recuperação financeira da instituição. “Uma assinatura e esses R$ 59 milhões chegariam a Bagé. Com isso, seria possível quitar débitos com a classe médica, fornecedores e ainda realizar investimentos no hospital”, afirma.

O responsável pelas Relações Institucionais da Santa Casa, Rafael Amaral, defendeu a necessidade de ampliar o debate sobre o financiamento da saúde pública e destacou que os hospitais filantrópicos acabam absorvendo parte dos custos não cobertos pelo SUS. “A saúde não tem preço, mas tem custo. Quanto mais SUS se atende, maior é o prejuízo para a instituição”, observa.

Segundo Amaral, tanto o pedido de ressarcimento da tabela SUS quanto a revisão do teto MAC utilizam dados reconhecidos pelos próprios órgãos federais. Para a administração, a articulação política da região junto ao governo federal será fundamental para acelerar a análise e a liberação dos recursos.

Ao final da coletiva, a direção reiterou que as contas da instituição estão abertas à fiscalização e que não se opõe à realização de novas auditorias. Também reforçou o apelo para que lideranças políticas, entidades e comunidade atuem de forma conjunta na busca de soluções para garantir a sustentabilidade financeira da Santa Casa e a manutenção dos serviços prestados à população de Bagé e dos demais municípios atendidos pelo hospital.

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