Saúde
“O peso de ser tudo”: o adoecimento emocional nos diferentes papéis da mulher
por Viviane Becker
Equilibrar carreira, maternidade, vida afetiva e autocuidado tornou-se uma maratona invisível para as mulheres contemporâneas. Mas qual o limite entre o cansaço comum e o adoecimento emocional?
Na terça-feira, a psicóloga e psicanalista Sílvia Vargas, coordenadora do Curso de Psicologia da Urcamp, realizou a palestra “O adoecimento emocional nos diferentes papéis da mulher”.
Com abordagem acolhedora e baseada na experiência clínica, o público presente foi convidado a refletir sobre as pressões invisíveis do cotidiano e a importância de resgatar o espaço do desejo próprio em meio a tantas obrigações.
O evento, oferecido nas dependências da Mistura da Terra, buscou oferecer ferramentas para que cada mulher compreenda seus limites e priorize sua saúde mental.
Durante a palestra, Silvia mergulhou na metáfora da “Mulher Polvo”, uma imagem que ilustra com precisão a fragmentação da mulher contemporânea entre carreira, maternidade e gestão doméstica. “Discutimos como a sociedade construiu um ‘normal’ insuportável, onde o esgotamento físico e mental é naturalizado sob o pretexto de uma eficiência inquestionável. Essa exigência de perfeição simultânea em todos os pilares da vida não apenas sobrecarrega o cotidiano, mas cria uma armadilha invisível: a ideia de que o cansaço extremo é o preço justo a se pagar pelo sucesso multitarefa”, refletiu.
Pela lente da psicanálise, a psicóloga explicou que o verdadeiro sofrimento muitas vezes reside no abismo entre o Ideal do Eu (aquela mulher impecável que a cultura demanda) e o Eu Real (a mulher que sente cansaço e limitações). “Esse hiato é um terreno fértil para a angústia e a culpa. Fica evidente que o adoecimento não decorre apenas do excesso de tarefas, mas da exaustiva carga mental de sustentar o desejo e a organização do entorno, muitas vezes silenciando os próprios impulsos. Quando a existência passa a ser puramente funcional para o outro, perde-se o contato com o desejo próprio, transformando a vida em um ciclo de desempenho que ignora a subjetividade e a saúde emocional”, ressaltou a psicóloga.

