Ambrose Bierce e alianças
Chega um instante em que o universitário, ou já graduado, deve cumprir a obrigação de titular e estregar o trabalho de conclusão acadêmica. Ou grafar alguma pesquisa. A jornalista Melissa Louçan, que escreve reportagens no Conecta, suplemento de destacado valor histórico, está passado pela transição de apontar autor ou fato que leve à obediência da regra acadêmica. Qual seja, optar por algum nome da literatura que mereça a consagração do cansaço investigatório; e do manuseio de páginas que, lá ou cá, fotografem a feição, talento, influência de autor proeminente.
Esse labor não é tranquilo, principalmente quando ela pretende acompanhar os sobressaltos do contista, poeta e jornalista Ambrose Gwinet Bierce, “o amargo (1842- 1914?) ”. Como diz uma de suas biografias, Bierce foi ficcionista, teve um halo de lenda que cercou sua vida. Escritor decepcionado com os vivos, “fez-se tão íntimo das sombras dos mortos que acabou ele mesmo por tornar-se o personagem”. Falta em sua narrativa “cruzando o umbral”, mercê de seu estranho desaparecimento, sem deixar rastros, no México revolucionário de Pancho Villa, em 1914, ano que consta ser o de sua morte. A realidade e a ficção, continua o verbete, são elementos indestrincáveis em sua obra única.
Seu estilo “é leve e solto”, aparentemente despretensioso, “mas tem a sutileza de mestre que se localiza no gotismo de Walpone”. Seus temas são lúgubres, sinistros, incomuns, como os de Poe, Kafka, H. G. Wells e principalmente Lovecraft. Jornalista em São Francisco, onde teve muitos inimigos, pois com obstinação atacava os ricos, os hipócritas, os opressores. Aos 18 anos ingressou no exército da União contra os confederados, onde levou um tiro na cabeça. Assistiu, na guerra, cenas horripilantes. Depois, já casado com Mollie, recebia cartas galanteadoras e guardava. Seu filho maior, Day perdeu a noiva para o melhor amigo, deu um tiro nele, na noiva e suicidou-se. Aos 71 nos, viajou pelo mundo, até na Revolução Federalista se diz que esteve como repórter. No México, em 26 de dezembro de 1913 escreveu: “ Quanto a mim parto amanhã para um destino desconhecido”. Então desapareceu para sempre. Nunca alguém encontrou suas pegadas.
Heloisa Seixas, esposa de Ruy Castro, grande organizadora de antologia, especialmente de terror, descreveu Bierce. “Ele era louro, alto, bonitão e as mulheres o consideravam irresistível. Dizem até que tinha sido tão bem-dotado pela natureza que jamais se desnudava diante da mulher para não assustá-la. Era agnóstico, ateu, herege, ou como vocês queiram chamar aqueles que descreêm de tudo. Sarcástico ao extremo, dedicou boa parte da vida a cultivar inimizades graças a sua atividade de jornalista, profissão que exercia despejando veneno a granel. Era um crítico feroz, inteligente e incansável e por isso intensamente odiado por muitos. Minha independência, dizia, é meu patrimônio. É a minha literatura. Escrevo para agradar a mim mesmo, não importando quem saia ferido”. É um dos mestres do terror e atribuía tudo à biblioteca de seu pai. O mundo inteiro avança diligências para desvelar sua vida. Nos Estados Unidos se aprofundaram estudos sobre ele. Para onde foi Bierce? Mistério.
ALIANÇAS
Antes já não assaltou a curiosidade do generoso leitor a razão de adotar-se “aliança na mão direita” para os noivos e “aliança na mão esquerda” para os casados? São práticas que se assiste todo o dia, isso em falar-se da emoção em atravessar estes itinerários de afeto, compromisso e amor (paixão?). Como se diz na fronteira “não me sofri” em obter uma resposta, eis que as minhas se reduziram aos âmbitos judiciais ou religiosos. Também cogitei o uso da mágica inteligência artificial, aonde sou jejuno e incapaz. Sucede que convidei, então, a bibliotecária Nelisa Falcade a quem passei a tutela das obras que acumulo, para a devida explicação, sendo ela quem ainda acredita na redenção do signatário em face dos livros que peregrinam, e sem respeito, por salas e vielas do apartamento, buscando proeminência física entre autores ilustres, também dos menos votados, igualmente considerados no círculo das leituras feitas. Preferi, então, transcrever a integridade da pesquisa, em louvor, até, da culta profissional.
“Poucos costumes são tão praticados e tão pouco compreendidos quanto o de trocar a aliança de mão ao se casar. No Brasil, seguindo a tradição católica, o casal usa o anel de noivado na mão direita e, no dia do casamento, ele passa para a mão esquerda, onde permanece como aliança de compromisso definitivo. A explicação mais repetida para essa escolha do lado esquerdo — e, mais especificamente, do dedo anelar — é a crença na chamada 'vena amoris', a 'veia do amor', que supostamente ligaria esse dedo diretamente ao coração. Essa crença é muito mais antiga do que o nome que a designa. Já no século IV ou V d.C., o escritor romano Macróbio, em sua obra Saturnália, descrevia essa ligação entre o dedo anelar e o coração — mas falava em um nervo, não em uma veia, e não deu a ela nenhum nome específico. Ele relata que, após consultar livros de anatomia, concluiu existir um nervo que nasce no coração e termina entrelaçado no dedo anelar da mão esquerda, e que por isso os antigos decidiram colocar ali um anel, como para honrá-lo. Macróbio atribui a origem dessa ideia ao Egito Antigo. Outra referência antiga, do bispo Isidoro de Sevilha, no século VII, também menciona uma veia ligando esse dedo ao coração, sem especificar qual mão. O nome "vena amoris", tal como o conhecemos, é uma criação bem mais tardia. A primeira aparição documentada da expressão é de 1686, num tratado sobre contratos matrimoniais escrito pelo advogado eclesiástico inglês Henry Swinburne. Ele descreve uma veia de sangue que vai do quarto dedo da mão esquerda direto ao coração, e afirma que a aliança nesse dedo simboliza que, assim como o casal dá as mãos, deve também entregar os corações um ao outro. Swinburne cita fontes antigas não identificadas e atribui a crença aos egípcios, provavelmente baseando-se, direta ou indiretamente, em Macróbio. Ou seja, o conceito de uma ligação especial entre o dedo anelar e o coração existe há quase dois mil anos, mas o nome que hoje usamos para ele tem menos de 350. A crença sobreviveu tanto tempo porque, até o século XVII, o sistema circulatório humano simplesmente não era compreendido. Foi só com o médico inglês William Harvey que se demonstrou como o sangue realmente circula pelo corpo, mostrando que todas as veias, na verdade, levam ao coração — nenhuma é especial. Antes dessa descoberta, a ideia da vena amoris era perfeitamente plausível dentro do conhecimento médico da época, e chegou a influenciar até práticas de sangria: o dedo anelar era às vezes chamado de "dedo da sanguessuga", e usar um anel nele, ou apertá-lo, era visto por alguns como remédio para problemas do coração. Vale notar que essa história antiga chegou até nós de forma fragmentada — os registros são poucos e espaçados no tempo, e alguns detalhes precisos, como quando exatamente os anéis de casamento se popularizaram em Roma, ainda geram debate entre historiadores. Isso é comum a muitos mitos fundadores, eles atravessam séculos sendo recontados, reinterpretados e enriquecidos por cada geração, até se tornarem menos um fato documentado e mais uma verdade sentida, que o coração aceita mesmo sem prova. É talvez por isso que a tradição ganhou tantas variações ao redor do mundo, cada uma com sua própria beleza: enquanto Brasil, França e Itália mantêm o anel de casamento na mão esquerda, países como Alemanha e Rússia preferem a direita. A lógica simbólica também muda de sentido conforme o momento da vida a dois: no noivado, o anel na mão direita comunica intenção e escolha; depois do casamento, a mudança para a esquerda marca a passagem de uma promessa para um compromisso definitivo. No fim, o que sustenta esse gesto há tantos séculos não é a anatomia, mas o desejo humano de dar forma física a algo tão intangível quanto o amor — um fio invisível, real ou não, que insistimos em imaginar ligando a mão ao coração “.

