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Vikings, outra vez

Em 20/06/2026 às 13:18h, por José Carlos Teixeira Giorgis

Há cerca de três anos, quando em andamento o Projeto Rio Camaquã, esse jornal publicou informação obtida pelo articulista de que Bagé havia sido visitada pelos vikings no século 17 da era moderna.

A prova indiciária repousava em declarações do Dr. Pureza de Carvalho, o ermitão das Palmas, de que contrabandistas do passado haviam descoberto, às margens plácidas daquele rio de integração, pedaços de madeira, com forma de cabeça de dragão, que - posteriormente descobriu-se- enfeitavam as “drakkas”, existentes nas embarcações de construção sólida usadas por aqueles célebres navegadores. O trabalho sobre a hipótese inicial seria enfeitado por outras e conclusivas provas: a descoberta de um mapa, no Museu de Copenhague, indicando um filete d’água chamado Kamagua, bordejado por indicações, como Pas du Silence, Saint Louis, Mina (pronuncia-se Miná), Yagguaron, etc., pistas muito expressivas de certas e trilhadas regiões dessa fronteira.

Tal fato levou Thor Trelleborg, em defesa de tese na Universidade de Lund, em 1714, a afirmar que as inscrições rúnicas na pedra de Ramsum, perto de Eklistuna, Suécia, representando a cabeça de um boi Hereford encimada por letras góticas com a palavra “Baye”, inquestionavelmente, se relaciona com esse nosso amado setentrião natal.

É sabido que os vikings tocaram a costa americana cinco séculos antes de Colombo, atraídos por águas piscosas e terras abundantes de caça, conforme referido em “História Marítima”, de autoria do vice-almirante João Carlos Caminha, Bibliex, 1980, p. 36, e que seguiam três rotas básicas: a oriental, através dos territórios eslavos; a ocidental exterior pela Islândia, Groelândia, América; e a ocidental interior, pela Escócia. Pois a atração principal do continente americano, notadamente aos viajores noruegueses, era a procura de peles.

Cientes que esse rincão era úbere de animais que podiam oferecer material para a construção de seus barcos e para aquecê-los na travessia das Hébridas, através da conexão oceânica, esses românticos marinheiros escandinavos acabaram chegando ao Rio da Prata. Criou-se, assim, um vasto território de espoliação, entre esse rio e o nosso Camaquã, bem utilizado pelos vikings, que por ele transitavam livremente, caçando bovinos e aprendendo com os nativos a transformação do couro, pois “sabe-se pela interpretação de textos dos papiros, que o couro era muito empregado na confecção de sandálias, suspensórios, cintos, escudos, sacos, almofadas, arreios, assentos vários, barcos, caixões mortuários, velas de embarcações e inúmeros outros objetos úteis às vidas das comunidades, conforme “A idade do couro no continente d’el Rey”, Hélio M. Mariante, Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, 1979.

Uma grande curiosidade histórica, entretanto, residiu na maneira como os vikings conseguiam atravessas as águas então tumultuosas, naquele século, de corrente áspera e agreste, colocada de permeio no espaço Prata-Camaquã: as do hoje modesto e doméstico arroio Bagé.

Quando do calçamento da ruela transversal à rua Barão do Amazonas, os funcionários do Departamento de Obras Públicas da Prefeitura que faziam as escavações, lograram descobrir, mais ou menos a três metros de profundidade, enrolados em couros já parcialmente destruídos, pedaços de papiros enegrecidos pelas vicissitudes do tempo, mas que permitem a identificação de roteiros de viagens, que segundo dedução óbvia, se processavam através do afluente recém indicado.

A descoberta, hoje zelosamente guardada no Museu Patrício da Câmara, trouxe, enfim, a elucidação sobre a existência da ponte de pedras, que os contemporâneos chamam, eufemisticamente, de “Passo do Onze” (?).

Essa pequena e sólida construção, situada na continuação da rua Marcílio Dias, havia sempre despertado dos doutos, a maior perplexidade, seja pela coerência de sua situação oblíqua a qualquer transpasse, seja pelo material ali empregado, pois suas pedras, dizem alguns, assemelham-se às usadas nas Pirâmides, desconhecendo-se como aqui podiam ter arrivado, seja ainda pela forma como foi argamassada, muito parecida com a técnica usada pelas legiões hunas nas suas guerras de conquista.

Com esse achado, induvidosa se torna a conclusão de que a ponte do Passo do Onze, nada mais era que a via usada pelos vikings quando, vindo da região do rio Camaquã, dirigiam-se para os portos platinos, de onde encetavam as demoradas viagens até os Highlands, carregados de peles e couros, saudosos de seus fjords, mas eternamente seduzidos pela tranquilidade dos campos e pela sisudez do minuano.

Acrescento que, em respeito às pesquisas do Dr. Pureza de Carvalho que me trouxe a nota histórica, hoje doente com gravidade em Lisboa, buscarei informação junto ao Dr. José Paulo Ferraz, que ocupa invejável área utilizada em grande parte no cultivo de azeitonas, o restante com criação de gado Hereford, na Mina, onde Juca Abero escreveu parte de sua talentosa obra literária; e já fiz ao Dr. Décio Lahorgue, que além de grande jurista, se dedica a assuntos genealógicos, que descubra, em suas diárias investigações, se entre os viajantes, havia alguém com sobrenome Halland. Imagine-se só que algum ascendente do craque viking estivesse em eventual barco, aportado no Passo do Onze; e em momento de descanso, e pouso, houvesse, como os chineses, usado a cabeça de algum bovino, para bater uma bolinha com os colegas, exatamente no local onde, depois de séculos, se ergueria o pomposo Estrela D’Alva. 

Observação: o texto original foi escrito em 1982, que agora foi atualizado com outros dados.

 

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