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Vilmar Pina Dias Júnior

  • Professor do Curso de Direito da Urcamp | Doutor e Especialista em Direito do Consumidor

Trocar ou consertar?

Em 19/10/2026 às 13:40h, por Vilmar Pina Dias Júnior
Trocar ou consertar? | Vilmar Pina Dias Júnior | Colunistas | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Anni Hellwig

A pergunta parece simples, quase doméstica. Mas ela é, no fundo, civilizacional. Trocar ou consertar já não diz respeito apenas a um celular com a bateria fraca, a um eletrodoméstico com defeito ou a um objeto que deixou de funcionar. Diz respeito ao modo como passamos a organizar a vida: consumir rápido, usar pouco, descartar cedo e substituir sem demasiada hesitação. Zygmunt Bauman ajudou a dar nome a esse tempo ao falar da modernidade líquida, um mundo em que as relações, as instituições e até os vínculos humanos se tornaram mais frágeis, mais instáveis e mais descartáveis, atravessados pela lógica do consumo e da permanente substituição.

Na economia de mercado, a busca pelo lucro empurra empresas a vender mais e mais. E, para vender mais, não basta produzir; é preciso acelerar a substituição. É nesse ponto que entra a obsolescência planejada: produtos desenhados para durar menos, perder utilidade rapidamente ou se tornar inadequados diante de novas versões e tecnologias. A própria União Europeia (UE) reconhece o problema e tem reforçado políticas para prolongar a vida útil dos bens, incentivar o conserto e desestimular o descarte precoce.

O caso dos smartphones é emblemático. A União Europeia já determinou que, desde 28 de dezembro de 2024, vários dispositivos portáteis vendidos no bloco,  como celulares, tablets, câmeras digitais, fones e outros aparelhos, devem adotar a entrada padronizada USB-C; para notebooks, a exigência passa a valer em 28 de abril de 2026. A lógica é simples: reduzir desperdício, facilitar a vida do consumidor e diminuir o lixo eletrônico.

Agora, o bloco europeu avança sobre outro ponto sensível: as baterias. Pela regulamentação europeia de baterias, as baterias portáteis incorporadas em aparelhos vendidos na UE devem, em regra, ser removíveis e substituíveis pelo usuário até 2027, com previsão de exceções específicas. Em outras palavras: o celular não pode mais ser uma caixa selada, dependente de ferramentas complexas e de uma assistência técnica quase ritualística para uma troca básica. A mensagem é clara: se o produto pode ser consertado, por que condená-lo ao descarte?

Essa virada tem algo de econômico, algo de ambiental e algo de cultural. Econômico, porque mexe com a estrutura de vendas e com o modelo de negócio baseado na substituição rápida. Ambiental, porque reduz o volume de resíduos e o impacto do lixo eletrônico. Cultural, porque desafia a nossa pedagogia cotidiana do descarte: a de trocar o aparelho, o vínculo, o trabalho, a ideia, o afeto — quase tudo,  antes de tentar reparar. Em Bauman, essa fluidez não aparece só nos objetos, mas na própria forma de viver: tudo tende a durar menos, tudo é consumido com mais velocidade, e quase tudo corre o risco de virar mercadoria.

No fundo, a discussão sobre baterias removíveis e conectores padronizados é mais do que uma disputa técnica. É uma disputa de valores. De um lado, a lógica da obsolescência e da pressa. De outro, a defesa da durabilidade, do reparo e de um consumo mais responsável. A União Europeia, nesse campo, vem dando um sinal importante: não basta vender; é preciso permitir que o produto dure. E talvez essa seja a pergunta mais incômoda do nosso tempo: queremos mesmo continuar vivendo numa cultura de descarte, ou ainda somos capazes de consertar?

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