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O príncipe negro em Bagé

Em 18/04/2026 às 09:00h, por José Carlos Teixeira Giorgis

Há meses lamentei aqui que ainda não houvesse sido republicado o livro de João Coronel Sais, saudoso funcionário público, advogado, político e de grande atividade comunitária, chamado “Tipos Populares de Bagé”, 1984, em que o autor registra a presença de figuras conhecidas como o Congonhas, Coruja, Avança, Abelardo, Lucas Bilheteiro, Graxaim, Tibúrcio, Pipoqueiro e dezenas de outras personagens que circulavam pela cidade, causando curiosidade e alegria, “sorrindo, chorando, sofrendo, tornando-as mais humanas e mais ricas pela sua presença cotidiana, colorindo os seus crepúsculos ou suas auroras”, como narra o Reverendo Guedes no prefácio da obra; e que também anota sentir-se “ o perfume da legenda como o Príncipe Negro, o Preto Caxias, Mãe Luciana, o Alemão Solitário, o Judeu Francês”.

Foi, pois, com algumas perplexidade e encanto que, ao remexer a biblioteca, encontro mais uma prova concreta da presença de Custódio Joaquim em Bagé, anotada há mais de 62 anos, já referendada por autor de reconhecida idoneidade histórica e que reproduzo em parte, com a vênia de seus sucessores.

“Quando imperava no mundo o trafego de seres humanos como se fossem mercadoria comum, quando o negro era uma presa fácil e rendosa, os países da América fora invadidos por levas de escravos vendidos por preço vil, colocados nos trabalhos mais pesados e sob as mais rígidas medidas de proteção cautelar ( )

Nesse tempo, entre enormes filas de escravos, vindos nos porões dos navios negreiros, aguilhoados, foi incluído por certa predestinação, um Nobre, um Príncipe Negro, que caíra no desagrado do Governo de sua terra e fora mandado para a América Latina. Na distribuição dessa massa humana, sem entendimento, sem afeição e sem direitos, coube ao Rio Grande do Sul, e, de um modo especial, a Bagé, receber um negro escravo como tantos, uma coisa, apenas, sem valor a não ser de troca. Esse negro comum, aprisionado, destinado a trabalhar na terra fazendo-a produzir e enriquecendo seus senhores, tinha uma característica excepcional, diferente. Era ele um Negro Nobre, um Príncipe de sangue azul. Vendido e revendido, o Príncipe não s adaptava às contingências de sua nova vida, e, por isso, sofrera muito, escorraçado e perseguido por seus donos, que não podiam entender a razão da revolta de um simples escravo! Assim foi ele passando de dono em dono, como pedra que rola e não cria limo! Os escravos que o conheciam, sabiam da impossibilidade de o Príncipe tornar-se um trabalhador braçal. Fora criado para mandar e não ser mandado. Sua origem era nobre. Nascera sob a proteção benfazeja dos deuses que depois o esqueceram!

Abandonado por todos, como um pária social, o Príncipe passou a morar na Rua do Acampamento, no caminho que conduz ao Cerro de Bagé. Ali viveu muitos anos, sem recursos e sem meios de vida. Um Negro perdido na multidão! Sem amigos e sem afeição de ninguém, o Príncipe Negro, na sua concepção de Nobre e predestinado a comandar seus súditos, lutava contra a desgraça que o afligia e o sentimento de desespero que o amargurava! Escravo alforriado pela sua má conduta! Não era um cidadão. Não era, enfim, nem gente, nem coisa!

Assim o Príncipe Negro resolveu afogar suas mágoas no caminho tortuoso do vício! Fez da bebida o lenitivo para suas aflições. Tornou-se um Tipo Popular muito conhecido. Para alguns, um negro escravo, revoltado, inútil, sem nenhum valor: para outros um Nobre, um Príncipe Real que o destino, com seu poder mágico, jogou-o distante, no infortúnio e no desalento.

Deste Negro Nobre ficou uma lembrança, um Marco a testemunhar sua passagem por Bagé: o seu título de “Príncipe” na confluência dos arroios Bagé e das Pedras, no Passo do Príncipe que todos conhecem e talvez, sem o saber, estejam ainda a homenagear o Africano Escravo, de origem nobre, que a voz do povo instituiu e consagrou. “Passo do Príncipe”, daquele que não teve nada de seu, nem direito de liberdade, mas confortado pelo seu semelhante, conseguiu deixar no coração do povo cristalizado seu título que ainda perdura em todo esplendor”.

“ Tipos Populares de Bagé”, de João Coronel Sais, FAT/FUnBa, 1984, p. 59/60.

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