Antonio Torres Heredia, um dos cambórios
Era momento de dormir. Uma luz fosca iluminava a penumbra. E projetava contra a parede o meu perfil. Como um rabisco. Atentei para a imagem. Não era comum aquele desenho. Nem conhecida aquela efígie. Aí está um pedaço da gente a que não se dá valor existencial. É quase uma estampa resguardada num álbum sem fotos. O costume de cada dia é, depois que acorda, esfregar os olhos, mexer a cabeça num exame básico. Cumprimentar o espelho (aquilo é uma ruga nova?). A investigação exige um trajeto ampliado. Às vezes se tem de aproximar do vidro, repuxam-se os olhos, a mão acaricia os cabelos desalinhados. A água fria arrebanha os últimos suspiros, recolhe os vagidos de saldo, a fronte domina.
Isso tudo para assegurar o predomínio da face, o verdadeiro eu, vertical, a única confidente em que se confia, pois está lá, frente a frente, impávida. Inquisidora. Diária. Parceira. O diálogo silencioso, o exame de consciência que responde a mudez de cada pergunta. O que quero dizer, o perfil é secundário, não se fica de lado para as abluções, todo comando é frontal. Outro movimento só é cabível para ajeitar as melenas, para o pente rebuscar alguma onda que ficou sem jeito. Às vezes se lembra do perfil num flagrante familiar; quando é o grupo que faz pose, surge alguém que brinca, “capricha o perfil”.
Agora lembrei. Federico Garcia Lorca, ao descrever a morte de Antonio Torres Herédia, “Cambório de dura crina, moreno de verde lua, voz de cravo varonil”, narra que “tres golpes de sangre tuvo e se murió de perfil”, “um anjo garboso põe-lhe a cabeça num coxim, outros de rubor cansado acenderam um candil”. A valorização do perfil foi consagrada quando o nazareno cunhou a irmandade das faces, recomendando que o agravo feito a uma delas permitia que a outra se oferecesse para o mesmo castigo. Pode-se, assim, estabelecer uma verdadeira retórica entre cara e perfil. Começando com a impossibilidade de que possam travar um debate com equidade. O rosto é dominante, o perfil é recessivo. A face é vaidosa, está sempre na proeminência, o perfil é modesto, excepcionalmente se mostra. É necessário que o rosto conceda ou abdique o momento de superioridade, pois o perfil se mantém disciplinado na sua inferioridade. Faça um experimento, force o rosto a subjugar-se à posição incômoda do perfil e verá que ele convalesce, adota uma substituição forçada, deixa de existir. A sombra do perfil se dissolve, as linhas esmaecem quando a luminosidade desaparece.
Consta que aos 19 anos Rui Barbosa foi iniciado na Loja Maçônica América, de São Paulo, onde também deram passos Castro Alves e outros ilustres intelectuais. Era um abolicionista convicto, preocupando-se com a integração do brasileiro de origem africana na sociedade nacional. Em março de 1868 ingressa na Faculdade de Direito de São Paulo. Diplomado, retorna à Bahia e se afasta das lides fraternais, mantendo viva, contudo, a chama libertária, transferindo-se para o Rio de Janeiro. Em 1872 abre seu escritório como advogado, destacando-se na defesa dos direitos naturais e individuais do homem. Defende a liberdade religiosa e o estado laico. Brilha na Segunda Conferência de Paz em Haia (1907), sendo eleito juiz da Corte Internacional de Justiça em 1921. Sustentou que os Estados Soberanos deviam governar-se pelo diálogo e não pelas armas. Senador, foi derrotado em duas eleições. Foi um defensor da população negra escravizada. Proclamada a República, Rui cria a Bandeira do Brasil com a legenda “Ordem e Progresso”. Nos primeiros tempos de maçonaria apresentou um projeto de abolição da escravatura. Também, no âmbito maçônico, propôs regra que todas as Lojas deviam abrir no orçamento, uma verba especial reservada ao alforriamento de crianças escravas. E nas regras maçônicas propôs que todo candidato, antes de receber a iniciação devia declarar livres todas as crianças do sexo feminino, filha de alguma escravizada.
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Tibúrcio foi alguém sempre chamado para serviços eventuais ou jardinagem. Respeitoso era benquisto pelos moradores da zona norte. Também frequentava um bolicho, onde havia uma bem tratada cancha de bocha. Certa vez, na saída do bar encontrou um conhecido e depois de muita conversa, voltando para o grupo, contou: “ “Esse cara, seu fulano, é que é feliz. Cheio de sorte. Deu o golpe do baú, um braguetaço”.
-Como assim, Tibúrcio, com que ele casou. -Mulher muito rica? Perguntou um dos presentes. – Muito rica, não, mas ganha bem. Ela é servente da escola municipal e ganha salário mínimo. Meu amigo não quer outra vida, deixou de trabalhar e passa as tardes jogando bocha. Não quer nem saber. Isso é que é um cara feliz, meu amigo.
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