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Um aqueduto em Bagé

Em 28/03/2026 às 14:51h, por José Carlos Teixeira Giorgis
Um aqueduto em Bagé | José Carlos Teixeira Giorgis | Colunistas | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Foto: Reprodução /JM

Não surpreende mais. De repente alguém refere fato inteiramente desconhecido para o cronista embora este se vanglorie de conhecer umpouco de sua aldeia natal. O espanto veio de uma mensagem de Jorge Fara, hoje um dos líderes estaduais da advocacia. É uma foto no estilo amazônico, o interior de uma mata fechada com um belo aqueduto. Puxa, mas como a obra, tão ao gosto dos conquistadores romanos, acabou ali às margens do piscoso Arroio Bagé? Foi coisa dos irmãos Chichi, é a explicação. 

O historiador Eurico Salis narra a saga dos irmãos Francisco, Miguel e Vicente, lastreado em informações de Norberto Greco. Depois de penosa viagem obtiveram do governo o privilégio de domar as águas do arroio, através de um moinho movido à força hidráulica para beneficiar trigo. De início construíram um forte paredão, desviando as águas até uma roda de madeira, arquitetada por artífices locais liderados por Pedro Bianchetti. Era o início da Indústria Bageense, mais tarde Moinho Bageense. Em junho de 1873, alguns malfeitores, achando que os imigrantes vinham para apossar-se de mais terras, assaltaram a propriedade, sendo morto Vicente Chichi, que havia adormecido sob a proteção de uma carroça. O episódio restou desapreciado pelas autoridades bajeenses, por razões políticas, entendendo Francisco de viajar para a Corte e obter alguma indenização por parte de Dom Pedro II, acabando, depois de algum tempo, em receber quarenta contos.  Caindo nas graças do Imperador que dominava a língua italiana e que gostava de óperas, Francisco tornou um conselheiro e parceiro para os recitais. Tempos depois retorna e funda uma fábrica de massas e padaria, sendo considerado o primeiro industrialista desta cidade. Os irmãos participaram da fundação da Loja Amizade, e outras entidades, com intensa participação comunitária. Quando Francisco faleceu em 1903, Miguel e mais José Greco, descendente de Francisco, não podendo saldar uma dívida de vinte e sete contos de réis com determinado Banco, transferiram o Moinho para Emilio Guylain, onde, além de massas e pães, já com a colaboração de Antonio Ferrando e Ângelo Gallerini, criaram um curtume; e depois vinhos e licores com Miguel Rovira, obtendo-se o azeite de oliveiras lá plantadas. Importa noticiar que no Moinho funcionavam banhos públicos, onde duzentos réis davam direito à toalha e sabonete. O aqueduto levava a água até o paredão, outro lugar de forte referência histórica, embora hoje seu minguado conteúdo.

Segundo o jornal Dever, em outubro de 1909, Miguel Chichi, após luta corporal, matou o comerciante Nestor de Bem, em São Sepé. Quando do assassinado de Vicente, Gaspar Silveira Martins, então parlamentar, pronunciou vários discursos, atribuindo a responsabilidade do evento a membros da família Silva Tavares.

Um dos irmãos Chichi era avô do saudoso Nenê Fara, pai do Jorge; e outro, tio do mesmo Nenê.

Quantas vezes, quando guri que o pai levava ao campo do Guarany, através dos caminhos que costeavam o arroio, não terei transitado por esta preciosidade arqueológica, cuja visita se torna perigosa hoje, mas deve ser zelada pelo poder público e incorporada até em alguma programação turística. Além do aqueduto dos Arcos do Rio de Janeiro e do Muro de Adriano, na Grão Bretanha, agora aplaudo o Aqueduto de Bagé entre meus afetos.           

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