Attila Taborda e a Vila Vicentina
Ao digitar o título desta crônica dei-me conta que havia unido duas grandezas ou valências inseparáveis. Pessoa e obra. São dignidades que se completam, que se adornam e enfeitam. Essa parceria está prestes a se renovar, quando um grupo médico se apresta em fazer campanha que, ao lado da homenagem a um grande cidadão, também exclama atenção para uma iniciativa benemérita. Soube-o através de Carlos Alberto Fico, enquanto dedicadas enfermeiras do pronto socorro da Casa de Misericórdia cuidavam de dolorosas chagas oriundas de (mais um) embate de minhas pobres carnes com o áspero solo fronteiro ao meu tugúrio bajeense. A notícia se completa com outra, também auspiciosa. A publicação de biografia do honorável esculápio, com abordagem de fatos e episódios não respingados nos louvores antigos, agora iluminados pelo talento e erudição do historiador Cláudio Lemieszek. Melhor dupla, comunidade e escrito, não se poderia almejar.
Em 1963 o Dr. Attila foi candidato a prefeito de Bagé. Na época o signatário debutava na política como aspirante à Câmara de Vereadores. Desde muito que as eleições aqui consistiam na disputa entre os partidos conservadores (PSD, PL, UDN, principalmente) e o trabalhismo de João Batista Fico, Justino Quintana, Frederico Petrucci, Luiz Maria Ferraz e outros.
O escritor Assenato Nunes – em obra que necessita ser republicada por sua importância para a memória da cidade e que me foi relembrado por Décio Lahorgue – ao descrever as procissões tradicionais refere que “quase sempre, nessas ocasiões, vi, de longe, àquela figura sóbria e concentrada de frente ao altar, com as mãos para trás segurando o chapéu, e a fita de uma Ordem religiosa ao pescoço. Nas imensas procissões que saiam e voltavam à igreja, após contornar a praça, o Dr. Attila, habitualmente, era um dos que carregavam o andor, ou dos que seguiam logo atrás. Eu nunca participei desses cortejos, mas, observando-lhe o ar contrito, o compungido de sua reza, punha-me a meditar sobre aquele: ambos pareciam-se muito; eram feitos de Renúncias e Sacrifícios: e identificavam-se na magreza e na Santidade”. Assenato registra, ainda, o fato de passar pela clínica do Dr. Attila: “mal dava para contar o número que compunha aquela fila de cliente. Da porta de sua casa até a esquina da Miscelânea, velhos maltrapilhos de todos os sexos e cores, de pé, encostados à parede, ou acocorados, aguardavam ali sua consulta, seu remédio e, alguns, o próprio alimento”. Perdeu a eleição, por poucos votos, para Luiz Maria Ferraz e Frederico Petrucci.
“Contou-me um dos líderes que o apoiaram", diz Assenato, numa desconsolada reunião depois do pleito," que a maioria estava furiosa pela derrota, atribuída às chuvas que impediram o pessoal da campanha a votar...". Em determinado momento um estancieiro explosivo, encarando o médico, vociferou:
"O senhor deve estar sabendo que devemos esse fracasso aos votos dos pobres? Desses mesmo loucos-de-fome que o senhor vive protegendo?". E o Dr. Attila, conciliador, e sem nenhuma alteração na voz ou nos gestos, respondeu; "Sei sim, mas entre eles e eu não havia qualquer compromisso eleitoral". O homem tornou-se apoplético e retrucou: "Pois fique sabendo de mais uma coisa: num levantamento que acabo de fazer no Foro, constatei que naquela urna da Vila Vicentina levamos uma bruta lavagem! O que o senhor conclui disso?"
"Concluo que aquela gente não quer me repartir com ninguém “. Foi assim o grande Attila Taborda.
Fonte: “Lembranças. Contos”. Assenato Nunes. 1989.

