Domingo da Pinhata
“O tempo se armou de fato Lá pros lados do Uruguai Vai chover barbaridade E sem poncho ninguém sai”.
Para os fronteiriços era costume olhar para o Sul, para a Cisplatina, para o céu oriental e dizer “parece que vem chuva”. Ou não. Como diz o verso de Adair de Freitas, desde pequenos, ao amanhecer se devia bombear para os “lados do Uruguai” e, então separar a capa, a sombrinha, o abrigo e as galochas para não se gripar com as gotas inesperadas. Muitas manhãs, ao sair de casa para as aulas, encontrava o pecuarista Elpídio Paiva, e lá vinha o conselho para a vizinhança “tem nuvens pretas para as bandas de lá, hoje tem chuva”. O presságio sempre se confirmava. O hábito também é cacoete do campeiro, quando prepara o seu primeiro mate e se incorpora ao olhar de cada um sempre que o firmamento escureça de repente. Anos depois os ruralistas passaram a confiar no Instituto Antares e adotaram escutar os noticiosos uruguaios. Era bíblia climática para todos. Raramente a informação se equivocava.
Assim, como narrei semana passada com respeito ao Empório de los Sandwiches, almejava, quando em Montevidéu, visitar o Instituto Antares, reino da elocubração celeste. Também aqui a frustração do sonho se impôs. Numa pequena sala em determinado edifício um casal de irmãos, desde 1936, manuseava dados. Consta que por anos afora, sem nenhuma tecnologia relevante, “guardaram” meticulosamente os eventos climáticos publicados na imprensa desde o início do século, ou seja, recortavam e armazenavam jornais do passado, e depois, a cada dia, utilizavam a estatística para revelar uma situação que tende a se repetir. Lembro bem que quando entrei no “instituto” um senhor, com um lápis, marcava cálculos num caderno quadriculado. E noticiavam a aproximação das frentes frias, massas polares e até possibilidade de enchentes. Acertavam bastante, até que em 1990, a empresa foi fechada. Hoje a previsão é científica, lastreada em outro tipo de informações, recolhidas dos céus com instrumentos de vanguarda. O pecuarista José Teixeira, que sempre cumpre férias no Uruguai, também viveu o mesmo devaneio, segundo contou ao grupo da mesa na calçada.
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Embora o número de rádios aqui existentes, dimensionado pelas concessões comunitárias, nenhuma se dedica, exclusivamente, à transmissão da música gauchesca e nativista, como se esperava, pois se está na Campanha. É certo que os programas existentes, alguns provindos das emissoras pioneiras, mantém uma boa qualidade. Aqui, à noite, sente-se falta de um noticioso que atualizasse os ouvintes dos acontecimentos, sabido que a televisão não exaure o rol de fatos, notadamente os municipais. Ressalto o carinho de João da Costa Neto com a música brasileira, a bossa nova, a velha guarda, boleros de Lucho Gatica e a dor de cotovelo de Lupicínio. A fantasia dorme junto.
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A Pinhata, que se festeja no Primeiro Domingo as Quaresma, consta ser oriunda da China, depois espanhóis e italianos que a introduziram no México. É um cântaro de barro, revestido de papel colorido (Marché), cheio de guloseimas, doces, caramelos, chocolates. É pendurado por uma corda, enquanto uma criança, vendada, munida de um porrete tenta quebrar o vaso, que é girado para não ser atingido. Tento uma ilação um pouco trágica.
Lembro, quando criança, de uma estória que circulava no ambiente local. A viúva, que havia sido maltratada e agredida pelo marido durante o casamento, após muito tempo do óbito dele, exumou seus restos, colocou-os num saco pendurado nas parreiras do pátio da estância, e dia a dia aplicava severas sovas, enquanto imprecava e o maldizia. Dou como contaram. Mas não subscrevo.
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O Prêmio Goncourt, concedido pela Academia Francesa de Letras, foi instituído em testamento pelo escritor Edmond Goncourt, em 1898. Quando ele faleceu, indagaram do escritor Pierre Théophile Gauthier – poeta e crítico, defensor do Romantismo, elogiado por Flaubert, Baudelaire e Balzac- de que mal dito benemérito havia falecido. Em um de seus folhetins, Gauthier respondeu: “Da frase, da frase que mata”.
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