Mesa na calçada
Rondeau, 1480. Montevideu. Há bons anos atrás cumpri o estágio militar como oficial em estabelecimento que louvava a “arma de heróis” em sua progressão mecanizada. Onde, por estar no magistério, também dirigi a “escola regimental”, que cuidava de alfabetizar soldados carentes. Contei alhures que o futsal na cidade teve ali seu provável nascedouro com o aparecimento do “Furacão”, time que disputou, com sucesso, muitas olimpíadas divisionárias. Lembro com afeto as madrugadas de serviço que desembocavam no rancho para o bife na chapa e o café preto para manter-se desperto. Quando guri escutava todas as manhãs os passos dos cavalos, trazidos pelo ajudante, que vinham buscar o capitão Henrique Herzer para seus afazeres no “12” trazidos pelo ajudante. Anos depois esperaria, fardado, o caminhão de transporte dos oficiais para o quartel. Junto ao motorista sentavam os mais graduados. E na parte traseira, aspirantes, tenentes e capitães, sempre embevecidos pelos cantos de José Oscar Segredo. Feitas as continências de hábito o cassino acolhia para substancioso ágape. Ali, no antigo toca-discos, escutei pela primeira vez a bossa de João Gilberto. Logo o corneteiro chamava para os destacamentos.
Dito isso, desde o despertar insone, ainda na cama, em som baixo, ouvia as rádios uruguaias, especialmente a Imparcial, que martelava com uma propaganda que reverbera: “Emporio de los Sandwiches. Rondeau, 1480”. Meses e anos o reclame incrustou-se na mente. E lá ficou como hóspede. Tempos passados, numa rara ida à capital uruguaia, dispenso um passeio e peço ao taxista que leve a “Rondeau, 1480”. A expectativa foi grande, assim como ânsia da descoberta. A imaginação borbulhava. O trânsito demorou a revelação. Uma grande loja? Um espaço onde o povo ia mitigar o gosto? Um centro de comércio na Ciudad Vieja? Lamento. Apenas um agradável ponto para “dulces, saladitos e postres”, ainda atraente. Sem a dimensão do sonho. Decepção. Remexi o bolso, saquei uns pesos. - “Señor, um sanduiche por favor”.
Este episódio não foi original. Ocorreu também em relação ao Instituto Antares. Narro depois.
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Há cem anos aproximados, conforme a imprensa, foi aqui instalado o “Congresso dos Charqueadores”. De manhã houve uma reunião preliminar na Associação Comercial e de tarde a primeira em plenário. Dada sua importância para a economia do Estado, interesse dos criadores e charqueadores, havia um grande entusiasmo. Ainda que a safra fosse promissora, os frigoríficos não fizeram oferta de preços e aguardavam o resultado do conclave. Por outro lado, os criadores estavam aflitos em vista de aproximar-se a época da matança e o gado apresentar-se em condições esplêndidas para venda na balança. Por força de todas estas circunstâncias os debates no Congresso eram esperados com ansiedade. Para participar do Congresso dos Charqueadores chegaram de Pelotas o coronel Pedro Osório, dr. Ildefonso Simões Pires, representando o presidente da República Arthur Bernardes, Zeno Castro, Boaventura Ferreira da Silva e o dr. Balbino de Souza Mascarenhas. De Livramento, veio o importante charqueador Pedro Irigoyen (Correio do Povo, 10 de fevereiro de 1926).
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O “atento leitor” Eduardo Coelho Leal - como escreveria meu irmão George em suas crônicas-, culto advogado hoje em plagas catarinenses, com sua habitual fidalguia e memória, anota incorreções no texto da semana passada sobre a morte de James Bond baseado em artigos que escreveu no passado para periódicos locais sobre cinema, e de extrema relevância, que reconhece como derivadas de equívocos de digitação, mas servem de complemento para o tema e para o autor desta coluna. Uma delas aponta troca dos apelidos familiares do artista. Devendo anotar “Connery” como sobrenome do corajoso Bond, em certo momento lancei um “Penn”, um “lapsus” etário de que peço vênia. Aliás, em atitude de que soube mais tarde, a gentil jornalista Melissa Louçan, curadora dos articulistas deste periódico, de modo obsequioso, já se encarregara de fazer a mudança na versão digital do jornal. Eduardo, meu estimado ex-aluno e que tantas vezes propiciou convites para palestras em faculdades em que atuava ou dirigia, é o primeiro mestre da então Faculdade de Direito de Bagé, onde convivemos como professores.
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Com seu restabelecimento Francisco Viçosa pode aferir quanto a comunidade o aprecia e estima. Seu transe por hospitais a todos preocupou. Cidadão que se integrou em todos os setores, como empresário, músico, cronista esportivo, nativista, cantor, redator, radialista, Chicão em pouco tempo logrou conquistar o apreço que desfruta. Era um ouvinte cativo de seu programa dominical, mesmo lá na capital. Ainda soam para mim os acordes do “Canção para um Novo Mundo”, uma peça clássica dos Serranos, cortina de abertura de sua presença radiofônica, e que na letra de Celso Souza entoa: “Olha, tem tantos caminhos. Deus, eu não quero mais fingir, quero amar, quero sorrir, quero um mundo melhor. Deus, meu sonho é de criança. “
vida e obra de um homem costumam estar a tal ponto misturadas, que se torna difícil marcar as partes em que uma fica independente da outra. Antonio Olinto.
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