Quanto tempo dura uma geladeira? o custo da vida útil reduzida
No ano passado, após uma década de serviço, minha geladeira decidiu se aposentar, ou quase, apenas o freezer persistiu, e os técnicos foram unânimes: "não vale a pena" o conserto, que seria custoso e provavelmente temporário. Essa experiência não é isolada e contrasta drasticamente com as memórias de geladeiras de pais e avós que atravessavam 20 ou 30 anos, tornando-se investimentos para a vida toda. Hoje, a expectativa de vida útil dos eletrodomésticos parece ter encolhido para meros 10 anos, contribuindo para uma montanha crescente de lixo eletrônico. As Nações Unidas (ONU) estimam que, até 2030, atingiremos a assustadora marca de 82 milhões de toneladas de e-lixo, um problema ambiental e social de proporções gigantescas.
Essa mudança de paradigma não é acidental. Ela é reflexo de um cenário de corte de custos e concorrência acirrada, visando produtos mais acessíveis, mas também impulsionada pela busca incessante de lucros para acionistas. Entramos na era da obsolescência programada, uma estratégia intencional de redução da vida útil dos produtos para forçar os consumidores a comprar mais frequentemente. Dispositivos que antes eram construídos para durar, agora parecem ter um cronômetro embutido, transformando bens de consumo duráveis em descartáveis.
Diante desse cenário, surge o dilema: reparar ou descartar? Especialistas sugerem que o reparo é viável quando seu custo não ultrapassa um terço do valor de um produto novo e quando o aparelho ainda não atingiu metade de sua vida útil estimada. Legalmente, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) prevê que as empresas garantam peças de reposição por um "prazo razoável", hoje interpretado como cinco anos. No entanto, nem sempre o preço dessas peças é justo ou acessível, minando a própria viabilidade do conserto e empurrando o consumidor para a compra de um novo item.
A urgência dessa questão tem mobilizado o legislativo. Diversos Projetos de Lei (PLs) tramitam no Congresso buscando ampliar a disponibilidade e o acesso transparente a peças de reposição, além de combater a obsolescência programada. Embora nenhum tenha sido aprovado até o momento, a discussão é vital e merece um lugar de destaque na imprensa e no debate público. A relevância transcende a decisão individual de compra, interligando-se à responsabilidade socioambiental das corporações, ao bem-estar do nosso planeta e aos princípios fundamentais de boa-fé, clareza e respeito aos direitos do consumidor.

