Duas histórias
Amada Morte.
Morava lá por Santa Tereza. Naqueles tempos sua casinha era visita constante para quem buscava consolos, rezas, homeopatias. Atendia a todos. Ensinava as orações para os eventos mais inesperados; se não, movia as folhas de acácia, em gestos benfazejos. Chamava-se, parece, Amada. Ou algum nome de santa. Sua pequena sala tinha uma mesa, cadeiras, um sofá de canto. Puído. Nas paredes retrato de um casal, um homem solene em sua modéstia, ela com uma flor na mão. Uma mesinha com uma pequena imagem de São Sebastião, um toco de vela apagado. Nas paredes, de antigas escariolas, chamava atenção um armário com uma estante, forrada com folhas de velhos jornais. E nele poucas louças, e muitas garrafas, algumas incolores, com um líquido escuso, mas muitas outras cheias de cores variadas que, à réstea de luz, chegavam a iluminar a peça.
Na cadeira de balanço sentava dona Amada. Frágil, mãos juntas, encarquilhadas, as veias mostradas. A voz era forte, quase autoritária, as vistas firmes quando falava. Os visitantes procuravam as banquetas para ficar perto. Um modesto xale aquecia seus ombros. Contavam que sua derradeira gravidez - de filhos vários- fora sofrida. Dias de sofrimento no catre modesto, e anos depois, viram o fenecer do fruto, sacrificado corpo, já hotel de hóspede cruel. Veiu o presságio invencível, pediu que levassem para casa. Assim obedeceram. O quarto rústico, a cama, a mesinha com uma flor artificial. A medalha do santo. Acomodada, passou alguns dias sufocando ais.
Certo dia convocou a família, a todos deu ordens várias, que preparassem as peças para uma reunião, vizinhos convidados, o piso limpo, sem pó ou cheiros, compoteiras azuis sobre a mesa, toalhas puras, a chapa do fogão areada. Cumpridas as ordens, olhos cobravam interrogação. Farei a viagem definitiva, prescreveu ela. Ouvidos surpresos. Bocas indagando. Morrerei às três da manhã. Que é isso, mãe, diziam os filhos. Brincadeira mana, eram os irmãos. Deu ordens e conselhos. Recomendações. Lúcida, viva. Por alguns dias a doença continuou visitando seu frágil corpo. Certa noite chamou a todos e disse que partiria às três da manhã do dia indicado. Protesto, choros, desespero. Beijou cada um. Os filhos seguravam o cobertor. Choravam. Dispôs a cabeça ao lado, um suspiro tépido, adormeceu parecia, todos sentiram, extensão dos dedos, o fugidio calor e o frio debutante. O velho relógio angulava os ponteiros na hora que anunciara. Três horas.
A velha senhora
O crepúsculo filtra uma luz que desbota as paredes, as revistas encabuladas com o manuseio do homem de polainas, o cheiro de café expresso; na rua, o tédio. Entrei segurando o outono pela mão, pois era fim de março, a penumbra me afeta. Como um sol brilhante demoro acostumar, a sala apática, indefesa. Venço o território do homem que olha a imagem da mulher nua, e descubro que tem uma umbela na mão, embora não ameace chuva. Apalpo a cadeira e o adorno parece composto, o homem e sua sombrinha, as prateleiras, as minhas circunstâncias aquietadas no assento, o aroma, resta só a cupidez do olfato. Volto-me para chamar a atendente que cochila no balcão. E aí a vejo.Achei que meu enfado era bastante para a solidão do meio, mais o homem de terno e guarda-chuva que apalpa a nádega da folha ilustrada, a fragrância que evapora: mas ela também estava. Pisquei o olho para vestir o hábito do desvelo, fiz de conta que o jornal me interessava, e assim fiquei como o soldado que descansa a mira, atento e pronto. A meia-luz escondia a mesa póstuma, mas se via que portava a distinção de uma dama, a polidez de regente, os gestos comedidos, o aceno suave, embora sem cor ou som. Havia a tepidez da era, mas trajava peles, a maciez do couro em debruço, as feras que sossegavam nos ombros, honradas do escapelo e hasta. O colo se dissimulava em lenço, a seda serpenteando o pescoço em lúbrica dança que culminava broche de respingadas pedras, amuleto e foto. Na cabeça um chapéu de flores, margaridas, lírios, miosótis, a secura do jasmim disputava ar e fôlego com o perfume do café que fumegava da xícara.
{AD-READ-3}E tudo foi como se o tempo estacionasse, a mudez do instante, o silêncio da voz, a dimensão dos corpos, estáticos, imóveis, enquanto ela, como a moldura da sala das lembranças, sorvia com lentidão e aprumo o gosto da bebida, os lábios curvos na porcelana, sem sofreguidão ou pressa.
Quando a velha senhora saiu as lâmpadas da rua já abrasavam.

