A morte de James Bond
Confesso que o fato inquietou, logo quando estava abalado pelo desaparecimento do meu celular. No filme “Sem tempo para morrer”, que se passa na Jamaica, Noruega e Itália, quando buscava salvar a sua filha, Bond é atingido por um míssil, seguindo-se explosões inequívocas. Os últimos momentos vividos, agora com Craig envelhecido, foram comoventes. E a película deixa explícito: James Bond morreu. Em cena seguinte, os agentes estão reunidos por “M” e bebem em lembrança ao colega falecido.
O chefe abre um velho compêndio e lê, com solenidade: “Quero aproveitar meu tempo. Prefiro ser cinza que pó. E que que minha centelha se apague em uma chama brilhante do que ser sufocada pela podridão seca. Prefiro ser um meteoro soberbo, cada átomo de mim em um brilho magnífico de que um planeta sonolento e permanente. O propósito do homem é viver e não apenas existir. Não vou desperdiçar meus dias tentando prolongá-los. Vou usar meu tempo.” Quem pesquisa descobre que o texto é o “Canto”, escrito por Jack London e na verdade a filosofia adotada por Bond.
Em 1950 determinada editora publicou sob a forma de “livro de bolso”, a novela “Cassino Royale”, que logo caiu no gosto dos leitores; e que seria levada ao cinema estrelado por David Niven como Bond. O autor, Ian Fleming, como sabido, fora funcionário do setor de Inteligência britânica. O sucesso logo despertou o interesse dos produtores Harry Saltzman e Albert Brocolli, donos de uma franquia que lhes renderia, anos a fora, muitos milhões de dólares com o êxito dos filmes, tudo acompanhado pela publicação de obras numerosas com 007. O filme de Niven seria único, pois não cogitado no pacto com a Eon Productions, de Saltzman e Brocolli. Em minha biblioteca guardo com carinho os livros de Ian Fleming.
Para nós, os jovens da década sessenta, não houve maior alumbramento que no filme “Satânico Dr. No”, quando numa praia deserta, abre-se o mar e dele sai a exuberante Úrsula Andress, em reduzido biquini, logo conquistada pelo “homem alto, de cerca de 46 anos, moreno, elegante, caucasiano, porte atlético, viril e sedutor” e que se apresentava como “Bond, James Bond”, apreciador de bons ternos e gravatas, além de vinhos. E martinis. Fãs de Sean Connery, o maior de todos os Bond, calculam que o mesmo bebeu 109 martinis em seus 24 filmes. E os vilões se sucediam em cada aventura espetaculosa: Spectre, Smersh, Goldfinger, Blofeld, Scaramanga, Xenia. Também nos impressionava, além das mulheres bonitas, elegantes e dos episódios empolgantes sempre em paragens turísticas, os carros cheios surpresas e truques, os Aston Martin, Rolls Royce, Toyota. E as armas portadas com perícia por James como a atraente Beretta, que virou mania dos colecionadores e outros candidatos a detetives, além da eficiente pistola Walters PPK, ou uma Luger mortal. Tudo ajustado ao corajoso Bond, atleta capaz das maiores peripécias e acrobacias. Bond era demais. E os livros se acumulando, ora no Japão em jardim de fumarolas sulfurosas; ou salvando e se apaixonando por Tracy; ou superando o governo soviético; ou entrando na rivalidade atômica entre as nações; ora se jogando de aviões supersônicos. Neste momento final, luta contra o festejado ator Rami Malec, Oscar e Globo de Ouro em Bohemia Rhapsody, como Fred Mercury, que rapta a filha que ele teve com Léa Seydoux. Nestes quase oitenta anos outros artistas tentaram rivalizar com Connery, como George Lazenby, Roger Moore, Timothy Dalton, Pierce Brosnan- o inglês que também brilhou na pele de Thomas Crown e especialmente Tom Ripley – e finalmente Daniel Craig, que aguentou até agora. Houve época em que os produtores, em busca de substituto para o papel de Bond, pensaram em um ator negro, com o “aplomb” e elegância de um Sean. Fixaram-se no ator britânico Idris Elba, 53 anos, filho de pais de Serra Leoa e Gana, também cantor, DJ, com outras atividades artísticas, o “Luther” de uma série televisiva, além de numerosa filmografia. O mundo torceu que aceitasse, mas o ator, que é Membro do Império Britânico, quedou-se em seus projetos. Quem sabe agora?
Em parte do filme em comento, onde atua também a sensacional atriz cubana Ana de Armas, aparece como 007 a atriz negra Lasha Lynch, então no ofício por licença de James e que, ao longo da projeção, formalmente transfere o “007” de novo para o titular. Nos créditos de “007, sem tempo para morrer”, depois da morte de Bond, os produtores anunciam que “James Bond voltará”. Também se acredita, mas agora tendo uma mulher como agente. E negra: Lasha Lynch. Se bem que a personagem exija invejável capacidade física e agilidade; e os continuados romances com adversários, fatores que não fazem supor uma mulher como Lasha, parecendo que sua aparição recente serviu como teste, assim como sua desistência, entregando o 007, de novo, para Bond.
Em entrevista recente, muito entusiasmado, Pierce Brosnan declarou que “apostava todas as suas fichas” e “tirava o chapéu pra esse cara” referindo-se ao ator Aaron Taylor Johnson (de “Kraven”). O candidato inglês de Pierce Brosnan atuou também em Ana Karenina, Godzilla, O ilusionista, Selvagens, Nosferatu e Animais Noturnos. Na disputa parecem estar ainda Daniel Kaluuya (de “Corre”), Joe Alwyn (de “O Brutalista”), Nicolas Hoult (de “Nosferatu”) e Cillian Murphy (Oscar como Oppenheimer; inolvidável como o chefe da máfia de Birmingham em Peaky Blinders. Fez teste para Batman, mas acabou como o Espantalho. É também cantor e tem banda de rock).
Há pressa em escolher o novo James Bond, eis que transcorreram cinco anos do último filme do sedutor agente. E, principalmente, consta que a franquia pertence agora à Amazon. Bom seria que Idris Elba reconsiderasse.
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Dedico essa pesquisa/texto aos diretores, gerentes, editores, jornalistas, repórteres, diagramadores, estagiários e demais funcionários de “O Minuano”, corajoso periódico que se mantém fiel à boa imprensa como alma e voz do povo bajeense. JCTG.

