Soleira da porta
Fiz o sinal, a lotação encostou. Estava quase cheia. Mirei a vaga no banco da frente. Acomodado, o veículo movimenta. Atentei para as pessoas, uma dela segurava a bolsa como se protegesse tesouro. E falava com a outra de modo imperativo. Estranhei o som, parecia chinês. Algo como “sangue”. Apurei a escuta e pude compreender o que dizia para a mais moça, que mantinha os olhos baixos. “Neto tem sangue, nora não tem sangue”. A diferente sonoridade. E repetia, “não tem sangue”. “Nora”. A outra baixava os olhos. “Não tem sangue”. Apertei o sinal de descida. Quando a lotação travou, segurei o passo, ainda ouvindo a sentença. “Neto tem sangue, nora não tem sangue”.
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Algumas vezes nesta coluna contei sobre o comportamento de comandantes e guerrilheiros, especialmente quando exercitam a generosidade em relação aos vencidos. Nem sempre são cruéis ou sanguinários. Lembro a conduta de Saladino, que poupava os inimigos quando tivessem sangue azul, atitude que não observava com outros conquistados. Vencedor sobre os Cruzados, especialmente em Hattin, conquistador de Jerusalém, sultão do Egito e da Síria, teve conduta cavalheiresca com Ricardo Coração de Leão. Saladino foi um extraordinário líder militar que unificou os muçulmanos e derrotou os cristãos nas Cruzadas. É considerado pelos historiadores como um dos cem maiores líderes mundiais.
Um episódio próximo aconteceu aqui, no Combate das Traíras (1893) quando dois adversários (Mateus Collares e o Tenente-Coronel Cipriano Figueira, da Brigada Militar) trocaram gentilezas e até alguma informação antes da refrega.
Quando findou a Revolução de 1923, Honório Lemes foi aprisionado por Flores da Cunha. Encurralado pelas enchentes e para salvar suas tropas, o Leão do Caverá levantou a bandeira branca e foi pessoalmente se entregar, em “momento de grande simbolismo”. Honório estava esperando a faca, e Flores se aproximou e o abraçou. Honório arrancou do revólver e do espadim para entregar a Flores que não os aceitou. “Guarde suas armas, general, um homem como o senhor não deve andar desarmado”. E se abraçaram. E os olhos de Honório umedeceram. Falou então: - Como quer que lhe chame, de doutor ou de general. E lhe respondi: Sou bacharel em Direito. Pode me chamar de Doutor se quiser”. - Está certo, disse-me Honório, “porque general até um índio rude e grosso como eu pode ser”
O diálogo se encontra no livro “Tipos Gaúchos na Revolução de 1923”, de Henrique Fagundes da Costa, ora em venda. Esta obra também se sedimenta numa apreciável quantidade de fotos, inclusive homenagem que as mulheres de Bagé, prestaram a Honório Lemes, fato que sabia através de minha mãe, presente no acontecimento. Recorde-se, finalmente, que a pacificação de 1923 foi sacramentada em sala do palacete de Pedrinho Osório, hoje dependência da Secretaria Municipal de Cultura e antes repartição do Colégio Estadual Carlos Kluwe. Aquele é um local sagrado.
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O gesto de grandeza não ocorre apenas no embate entre líderes revolucionários, mas também em fatos corriqueiros. Breno Fischer foi um exemplar advogado que deixou no foro e nos tribunais os sinais de sua erudição, de sua ética e de sua conduta vertical. Em determinada causa teve uma bela contenda com o advogado Otacílio Moraes, os degladiantes luziram na sustentação de suas teses. A discussão teve palavras duras ditas por um e outro em nome dos respectivos clientes E a versão esposada pelo Dr. Breno foi derrotada. Tinha que recorrer, o fato ganhara notoriedade, as partes estavam em espírito beligerante continuado. O prazo estava fluindo e o Dr Breno agastado, pois não podia se afastar da cidade a fim de encaminhar sua apelação. Já ameaçado pelo fim do prazo, Breno Fischer, cheio de coragem, vai ao escritório de Otacílio e pede ao mesmo, seu rigoroso oponente processual que viajaria para a capital, entregar na secretaria da Câmara o conjunto de suas motivações em busca do reexame da decisão. E assim aconteceu. O ferrenho e ardoroso profissional, vencedor da causa, não tergiversou em levar ao pretório as razões da parte que já vencera. O Diário Oficial registraria, mais tarde, que a apelação subscrita pelo Dr Breno fora “tempestivamente” recebida e incluída já para breve julgamento.
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Domingo, saudoso dos tempos em que saboreava o mate na Praça da Matriz, acomodei-me na soleira da casa para testemunhar a passagem dos carros e, vez que outra, tagarelar com algum bondoso passante. É verdade que a maioria das vezes o olhar estava debruçado no belo conjunto arquitetônico em que se transformara a reforma de imóvel pertencente ao vizinho Luiz Fernando Ribeiro. Ali, então confronte à rua em que a turma da zona jogava futebol com bola de tênis, quebrando os vidros da dona Camica ou da loja que vendia máquinas de costura Pfaf, a rua ainda não era completamente calçada, os automóveis raros, tempos de carroções do Armazém Azambuja que distribuíam os pedidos pela clientela. A antiga casa, onde moraram as famílias de Zezé e Ney Costa e depois a de Tupy Paiva, tinha – tem? – um extenso pátio de quadra a quadra cheio de parreiras e de árvores onde dormitavam saborosos pêssegos, muito apropriados à sorrelfa pela gurizada como o signatário e Mário Paiva. Ribeiro sonhava com um edifício de vários andares, mas a legislação municipal e a proteção dos prédios tombados inibiram os desejos do proprietário. Hoje, com especial vantagem, tem-se ali espécie de um “pátio espanhol”, com duas modernas moradas, chamadas “Solar da Marcílio”. A desgastada frente da casa foi substituída por agradável frontão encimado por brasão com heráldica (ainda) desconhecia, pois seguramente a residência, no passado anterior às famílias Costa, Paiva e Ribeiro deve ter abrigado núcleo familiar vinculado às cortes lusitanas, pois aquele emblema lá está há muito tempo. Importa referir que a presença daqueles prédios estilosos tem sido causa de constante movimentação do trânsito, todos curiosos em conhecer a charmosa novidade imobiliária, cartão de visita, e aplauso, para a inspirada concepção dos arquitetos, engenheiros e operários bajeenses.
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{AD-READ-3}Em época de futebol frequente e destaque das cores encarnado e branco, estou procurando decorar a escalação do único time do interior bicampeão estadual. A intenção não é fácil, pois a memória acaba misturando Guarany, Inter, Palmeiras e Vasco de priscas eras. Oberdan, Caieira e Turcão, Alfeu e Nena, Adãozinho, Leivas, Rubilar e Rui. Miguel, Saladuro, Augusto e Rafanelli, Túlio e Waldemar Fiúme, quem mandou torcer para tanto campeão, Saulzinho, Abílio, Max, Ducos e Nascimento (Opps, estes últimos pertencem a outra lista). Ante a confusão de tantos artistas do pedibólio, acabei ficando apenas com um time que me acompanha do jejum ao adormecer. Ei-la: Zyloric; Valsartana, Dexilant, Forxiga e Rosuvastatina; Domperidona, Apixabana e Bisoprolol; Alopurinol, Ferripolimaltose, Betaistina e Nitrofurantoina. E dois puffs pela manhã de Spiriva. Treinador: o sisudo M.Z. Bosco.
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