Cafezinho e água mineral (sem gás)
Pois é. Soube que hoje é o dia do leitor. Apesar da surpresa não há como desconhecer a importância da homenagem. A relação entre a escrita e a leitura do texto é visceral desde que as hordas humanas se deslocavam pelas paragens primitivas em busca das cavernas onde descansavam e miravam as garatujas esculpidas nas pedras. E até agora, quando os rabiscos já se acham superados pela tecnologia que envaidece e surpreende.
Há um encantamento quando se ingressa nos umbrais de uma livraria. É como se defrontar com os salvados de Alexandria. Os restos de pergaminhos, onde ainda se agarravam as cinzas do incêndio, se transformam em molduras cheias de luz e saber. Quando o visitante pisa o solo do Gabinete Português de Leitura, no Rio, fica imobilizado pelos vários andares de estantes com seus livros seculares, onde dormita a cultura dos séculos. O mesmo êxtase que quase o derruba quando nas viagens ao exterior entra na Biblioteca da Universidade de Dublin; ou passeia pelos antigos seminários e conventos onde parece encontrar Adso de Melk ou Guilherme de Baskerville conversando com Umberto Eco.
Hoje outro fato cativa e seduz: a beleza das capas. Em décadas passadas o frontispício de uma obra era sisudo, anódino. A capa dura, com alguns alamares, mas desprovida de maior atração. Não esqueço, contudo, as exceções, como as ilustrações de Gustavo Doré para a Divina Comédia; ou Dom Quixote ou Proust, que receberam trabalhos pontuais. Agora, fruto da existência de bons desenhistas e pintores, há uma maior preocupação com a apresentação da obra, com um verdadeiro esplendor de cores, ou o uso de estratagemas que reproduzem produções de artistas consagrados, desde logo captando o leitor que começa o exame de sua compra pelas primeiras páginas. Enfim, as capas se integram ao conteúdo e quando mais curiosas ou interrogativas maior fascínio desperta para a aquisição. Como óbvio, a capa de um livro de Poe não será um verdejante jardim florido.
Como leitor contumaz tenho lá minhas manias. E uma delas aconteceu agora ao sair da cafeteria. Os olhos foram chamados para uma brochura, de poucas páginas, apenas um risco atravessava a capa imaculada noticiando A Morte de Ivan Ilicht, de Tolstoi. Com pressa tomei o cartão de crédito e incorporei mais um exemplar ao meu acervo. Essa é extravagância: várias edições de um mesmo título. Penso que o costume começou longe, ainda no tempo do ginásio no Colégio dos padres, com um devocionário chamado A Imitação de Cristo, de Kempis E a dedicatória do Padre Érico Schmengler: “ao esforçado secretário da Juventude Estudantil Católica para frequente leitura”. Datada de 8 de maio de 1950. Daí em diante, bastava ingressar numa livraria católica e se houvesse o livrinho lá ia ele para minha companhia. Devo ter uma meia dúzia. Mais tarde o mesmo ocorreria com o Machado de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em clube de leitura ou visita. Também com os Poemas de Fernando Pessoa. Desde que conheci os versos, especialmente os de Álvaro de Campos, acumulo os trazidos de Lisboa ou de outra parte do mundo. Por força das aulas, onde era imprescindível a ciência de um clássico de Engels, dormitam nas prateleiras diversas reproduções de Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, em geral livros de bolso em papel jornal, baratos. Também o mesmo com Sêneca, quando a velhice chegou. Quero deter-me, todavia, na extraordinária novela de Tolstoi. “No vasto edifício do Foro, num intervalo do julgamento da família Mielvinski, os juízes e o promotor reuniram-se no gabinete de Ivan Iegórovictchh Chebek e a conversa versou sobre o caso Krassov”. Eis que um deles, consultando um jornal anuncia “Senhores, disse ele, Morreu Ivan Ilicht”. Tolstoi havia abandonado a arte e renegado toda a sua obra pregressa para se dedicar à vida espiritual. Depois de receber apelo do escritor soviético Ivan Turguêniev, que logo faleceria, em 1886, retorna a literatura com a novela, considerada por Nabokov como uma das obras maiores novelas já escritas, “um dos textos mais impressionantes de todos os tempos” O enredo aborda, pois, um dos temas mais comuns, a morte inevitável. Ivan é um juiz brilhante, invejado, probo. Sabe o que pretende. Assim forja seu caminho. Ao chegar ao auge, descobre moléstia incurável. Eis o grande desafio e interrogação. “Ele escutou aquelas palavras e as repetiu em sua alma. A morte acabou”.
Ao acadêmico do Direito, ao profissional das normas jurídicas, ou simplesmente ao leitor militante a leitura de pouco mais de 70 páginas do grande Tolstoi é momento de raro deleite. E fruição.

