Contra a pressa de dezembro
Li, dias atrás, uma matéria da revista 451 intitulada “Os escritores e o Natal”. A proposta era ouvir autores sobre a data. As respostas variavam entre o desdém e a pose: “cafona”, “prefiro estar de pijama”, “bebendo e jogando sinuca”. Tudo muito espirituoso, tudo muito consciente de si mesmo. Cada um com sua experiência, é claro.
O que chama atenção não é a opinião individual — ninguém é obrigado a gostar de Natal —, mas a curadoria. Parece haver uma preferência por um tipo específico de escritor: o melancólico profissional, o avesso ao afeto, o que precisa se afastar de qualquer coisa que cheire a comunhão, tradição ou rito coletivo. Ser contra virou um valor estético. Fugir do clichê, um gesto quase obrigatório.
Fiquei pensando se a mesma naturalidade apareceria caso a data fosse importante para muçulmanos ou ligada a religiões de matriz africana. Será que o tom seria o mesmo? Ou a ironia daria lugar ao respeito? Não sei. Mas é curioso como falar mal de uma celebração cristã ainda soa, para alguns, como sinal de inteligência refinada.
Voltando ao Natal — esse velho sobrevivente.
A sensação que tenho é que, mais do que rejeição, o que existe hoje é cansaço. O clima natalino vai ficando em segundo plano porque as pessoas passam dezembro “ocupadas”.
Ocupadas resolvendo pendências.
Ocupadas fechando metas.
Ocupadas correndo como se o mundo fosse acabar no dia 31.
Engraçado é que essa ocupação quase sempre acontece com o celular na mão. O Instagram aberto o dia inteiro. Mas tudo bem, relevemos.
Dezembro virou um mês de urgência artificial. Como se o calendário tivesse poder mágico. Como se a troca de um número resolvesse — ou agravasse — tudo. Quando, na verdade, o que acontece entre 31 de dezembro e 1º de janeiro é só isso: o fim de um dia e o começo de outro. O mundo não acaba. Os problemas não somem. As contas continuam chegando.
Janeiro estará ali. Com seus boletos, seus compromissos, suas cobranças. Sempre esteve.
Talvez por isso o Natal exista. Não como fuga, mas como pausa. Um convite à suspensão da pressa. Um lembrete — ainda que simbólico, ainda que imperfeito — de que a vida não é só produção, desempenho e entrega. Que decorar a casa, olhar as luzes da cidade, sentar à mesa sem pressa, ouvir uma música, rir sem motivo também são formas de existir.
O problema é quando aceitamos, sem questionar, essa lógica empresarial que sequestrou o nosso tempo. Quando acreditamos que descansar é perda. Que estar com a família é improdutivo. Que memória não entra no currículo.
Se continuarmos assim, talvez cheguemos à beira da morte com todas as metas cumpridas — geralmente para agradar chefes que mal lembram nosso nome —, mas sem histórias para contar, sem fotos na memória, sem pessoas ao redor, sem encanto algum.
E isso, sim, seria profundamente cafona.
Que a gente se permita parar.
Que a gente se permita viver o Natal — ou qualquer outro rito que nos devolva humanidade.
Porque se perdermos a magia dessas pequenas pausas, não perderemos apenas o Natal.
Perderemos a vida.

