Conversa de sábado
Bermudes. “.... sou eminentemente político. Poderia até dizer que sou político porque sou homem. Na verdade, sou político porque me sensibilizo com os problemas da sociedade e procuro ajudar a resolvê-los com os instrumentos de minha profissão. A verdade é que é impossível dissociar a figura do advogado da do político. ”
Essa expressiva frase, que bem pode servir para convite de formatura de bacharelando em Direito, constou em uma das respostas de Sérgio Bermudes em entrevista que deu às páginas amarelas da revista Veja, possivelmente nos idos de setenta. Usei-a para homenagear o jurista quando fez, naquela época, uma palestra na Semana Jurídica da nascente Faculdade de Direito da FUnBa, nos salões do Clube Caixeiral. E que se emocionou, tanto que logo tomou-me o discurso. Usei-a depois como epígrafe num dos primeiros livros que escrevi, dedicado aos alunos, os “Cadernos de Processo Penal. Questões Práticas”, 1987, formulando opções, tal como numa prova de temas criminais. Não a lembrava, não fosse a memória privilegiadíssima do afilhado Décio Raul Lahorgue que a recordou, como faz sempre para alegria dos esquecidos.
Poesia. Em artigo anterior tive o atrevimento de fazer um provisório esquema sobre a poesia bajeense sugerindo que outros viessem em socorro acrescentando nomes, sugerindo etapas ou corrigindo os equívocos. Para surpresa, nenhuma ressonância. Devia eu já estar habituado com o “obsequioso silencio” que costuma acompanhar os escritos que aqui publico a quase trinta anos. Todavia devo dar nota que este deslembrar teve uma exceção, a do próprio escriba. Olvidei a inclusão entre os poetas da fase moderna o nome de Marilene Alagia de Azevedo que tem uma trajetória pessoal de vida de esforços e sucessos, que além de suas diversas obras publicadas, mantém-se ativa no uso das redes sociais, componente de diversos sodalícios, cuidando com desvelo de sua produção e que tem sua obra reconhecida em outras sendas. Diria que ela segue uma trilha literária própria.
José. Entre os guardados de minha mãe está um manual de rezas chamado “Devoto Josephino”, qual seja um conjunto de devoções mais usadas em honra do Glorioso “Patriarcha” São José. Foi editado em 1917. Dentro dele um recorte de jornal com uma novena poderosa ao Menino Jesus de Praga. E um marcador de livro com a imagem de São Judas Tadeu, distribuída na Matriz de São Sebastião em 28.10.1946. Vez que outra, antes de dormir, abro no dia da leitura e percorro suas páginas amarelecidas. Aquele papel rústico ainda guarda um cheiro, talvez dos dedos de minha mãe. O que estaria pensando, qual oração costumava entoar? Nele algo que depois reencontraria no internato, em época dos retiros espirituais: um método de confessar-se bem, ou seja, um compêndio de perguntas. Passei um tempo sem rezar as minhas orações? Falei mal da religião e seus ministros? Demorei-me voluntariamente em maus pensamentos? Disse palavras obscenas? Desobedeci meus pais e superiores? Fiz juízos temerários? Na inocência etária o confitente tinha no quarto até uma cadernetinha para anotar os pecados e decorá-los para o momento de se ajoelhar e despejar seus malefícios (Quantas vezes o vício solitário?). Pois minha mãe, na hora do parto prematuro e incerto “prometeu-me” a São José. E no registro o pai não esqueceu o louvor. Talvez achasse modesta a anotação de um só prenome, e lhe veio, talvez, a inspiração dos heróis medievais de que gostava. E lascou também um “Carlos”. Ecce homo. Logo que se recuperou dona Alda foi à capelinha para “vesti-la de alfombras e enfeites”. Ali casei, sob o tartamudeio do Padre Germano. E batizei Clarisse. Não consegui igual cerimônia para Letícia e Lúcia, ante o veto de minha igreja, pois Neusa Maria era episcopal. Inocentes, iriam para o limbo. Mas S. José já estava de plantão. Na falta de ouro, incenso e mirra, sussurrou: - Procura o Padre Fredolino e o Reverendo Guedes. E a água benta foi espargida pelos mesmos em duas oportunidades. Em nome do Senhor.
José Carlos Teixeira Giorgis.

