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A viagem

Em 03/03/2026 às 11:44h, por José Carlos Teixeira Giorgis

Sempre que subo no ônibus para Três Cerros me assalta a lembrança de uma viagem. Ainda hoje investigo quem senta ao meu lado, mas o fato antigo não se repete.

Vim para Porto Alegre preparar o concurso para carreira jurídica. Meu pai era o guarda-livros de uma charqueada, assíduo e diligente, resignado com a vida provinciana e a leitura de seus clássicos, bem-arrumados em encadernações de couro e lombada na biblioteca de portas de vidro. Filho de fazendeiro, crescera na Europa, graça ao acervo de meu avô, afeiçoado no casamento com distinta herdeira de léguas de campo. Minha mãe atendia às rotinas domésticas, era oriunda também de boa família. Lembro que no inverno aquecia os lençóis com ferro de passar, prevenindo resfriados, senão o médico afastava a língua com colher de prata para ver as placas, depois muito chá e repouso. Recatada e sóbria, como mulher de seu tempo, concordava com a vocação que o pai me assinalara. O bacharel, dizia enquanto folheava um trecho de Eça, é o futuro da Nação, pois além do escritório, pode ser promotor público, até funcionário.

Para não os contrariar, pois então me seduzia decifrar corpos e almas ou usar o poder mágico da cura, entendi razoável abdicar da medicina e fui para a capital. A pensão onde me hospedei era de um casal amigo. O dono tinha um parentesco remoto, eis que seu cunhado fora marido de uma prima de minha mãe. O quarto era agradável, a rua parecia interior, muitas árvores, barulho de pássaros, a visão do rio. De manhã o bonde me deixava no centro, frequentava os preparatórios. O professor de latim exigia tradução perfeita de Virgílio e Cícero, insistia na ordem direta. Escutava um pouco de rádio depois do almoço, assumindo a luta com a gramática, meu gosto era o verso; às vezes rabiscava a carta semanal contando as novidades poucas e pedindo dinheiro. Nada de cinema, o resto da mesada breve reservava para a compra num sebo.

(Mas estou a me desviar do alvitre que me veio).

No feriado rumava para casa, acordando cedo para atravessar a balsa, a água com bocejos, as estrelas ninando sereias. Naquele dia não atentara muito para a dama que sentara ao lado. Seu semblante não era estranho, o rosto mediano, porte firme, olhos fugazes, uma pessoa simpática. Depois de trocar protocolos, e como a convivência até a fronteira seria longa, acomodei-me para a leitura inconclusa, o que não era próprio, a estrada conspirava.

Em alguns momentos, quando o veículo desviava algum buraco ou manobrava em curva, nossos braços se tocavam. Estranhei que não retirasse o seu com a rapidez que a civilidade exigia. As mangas de seu vestido eram curtas e, fazendo calor, a tepidez de sua cútis impregnava minhas carnes, como se as epidermes se cumprimentassem. Encorajado, deixei o braço no espaldar e assim fomos encostados por horas até desaparecer o sol. A viagem noturna ajudava a fantasia. Sem meio para ler, inclinei para um repouso, mas confesso que todos os sentidos estavam despertos, por causa da poltrona vizinha, a pele quente, aguçada.

De repente, seu ressonar débil se aproximou de meu ombro e a cabeça pendeu delicada, como a pluma que afunda lenta. Não sei quanto tempo correu assim, talvez dormisse, mas sei que sonhava, eu contemplando seu movimento graciosos, cada alento empinando os seios.

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Como seu repouso prolongava, talvez açulado pela audácia jovem que tudo desculpa, cheguei a boca em sua testa, ancorando como barco que se ajusta pávido de escolho ou viga, mas seguro, arrogante. E assim foi em suave fôlego, ela reclinada em mim, o brando sopro dos lábios desafiando a tensão de meus músculos, e eu opresso, vigiando sua passividade, imóvel, temendo despertá-la. O aroma e o sal me inebriavam, e espreitava sua inocente tez, medroso que me surpreendesse. Quando o ônibus estacionou e as luzes se acenderam, acordou de brusco, como se ressuscitasse de letargia amena. – Desculpe, acho que adormeci, apenas disse.

Apanhou as valises e desceu ao encontro de um homem que a beijou, sorrindo-me enquanto o abraçava. Depois saíram da rodoviária.

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