A vida entre os livros
Comecei minha vida de leitor na Feira do Livro de Bagé. Primeiro, passeando com meus pais, encantado com as barracas coloridas e o cheiro de papel novo. Depois, já um pouco maior, quando comecei a comprar meus próprios livros.
Lembro de uma feira na Praça dos Esportes em que comprei meu primeiro exemplar com “meu dinheiro” — a mesada, claro. Era uma edição de bolso de Um certo capitão Rodrigo, de Érico Veríssimo, publicada pela Editora Globo. Papel jornal, formato simples, mas com uma bela ilustração do personagem na capa. Ainda guardo a lembrança nítida daquele momento.
Também recordo as contações de histórias da querida Carmem Dora Torrescassa, que me apresentou Harry Potter antes mesmo dos filmes — quando ainda só havia o primeiro volume publicado.
Desde então, segui lendo, comprando e, mais tarde, escrevendo. Em 2007, tornei-me escritor naquela mesma feira, lançando o conto O Andarilho em uma edição modesta, repleta das imperfeições de um autor iniciante — mas que me mostrou que esse mundo era possível.
De lá para cá, fiz questão de lançar todos os meus livros na Feira do Livro de Bagé. Nos anos em que não publiquei nada, estive presente do outro lado da mesa: prestigiando colegas, enfrentando filas de autógrafos e, principalmente, comprando livros nas bancas — porque incentivar o comércio local é também um gesto de amor pela cultura.
Claro, já tive minhas divergências com a feira. Nem só de flores se faz um caminho. Sempre me incomodou ver parte do orçamento destinada a shows e teatros, enquanto autores de fora — e até daqui — raramente recebiam cachês para palestrar. A feira poderia ser maior, mais literária, mais plural. Foi com esse espírito que, em 2017, criei o FestFronteira Literário: para mostrar que Bagé podia receber grandes escritores e grandes debates.
Ano passado, fui escolhido patrono da Feira — uma honra imensa. E, mesmo numa edição simples, com pouca verba, fiz questão de contribuir com o que acredito: uma feira forte, de muitos livros, muitos debates e muita literatura.
Agora, em 2025, passo o bastão com alegria ao escritor Valdomiro Martins, um dos grandes ficcionistas do país. Seu novo livro, Onanai, revela um autor maduro, seguro e profundo.
{AD-READ-3}Prestigiem a feira. Prestigiem os autores bageenses. E aproveitem para pegar o autógrafo do Valdomiro — cuja obra será lida e debatida neste mês de novembro pelo Clube de Leitura Contraponto.
Porque é nas feiras, entre bancas, livros e gente, que a literatura segue viva.

