A escravidão em Bagé
Os lusitanos não conseguiram reduzir os índios à escravidão vermelha, obrigando-se a recorrer à submissão dos africanos (1549), embora se encontre a presença deles nos engenhos desde 1535. Para o sul vieram com os bandeirantes; estavam nas missões jesuíticas; e na fundação do presídio de Rio Grande (1737) os registros anotam entre os presos, além de “paisanos que vieram povoar a terra” também alguns escravos vindos da Costa do Ouro (minas) ou de Angola e Congo (bantos).
A campanha para a libertação dos escravos teve pioneiros o jornalista Hipólito José da Costa, o charqueador Antonio José Gonçalves Chaves; a ação de Alexandre Luis, companheiro de Borges do Canto na conquista das Missões, que sempre os alforriava nas vitórias; a Paz de Ponche Verde, cuja cláusula quarta, dando liberdade aos cativos que serviram à República redundaria em letra morta; a criação da Sociedade Partenon Literário, em Porto Alegre (1846); e o trabalho da imprensa, das letras e das artes, que em suas produções divulgavam a idéia libertária.
Segundo a historiadora Verônica Monti são três as situações que sufragaram a abolição: a reação dos escravos que não se conformavam com seu estado; a ação de pessoas e movimentos bem intencionados; a pressão das circunstâncias e da opinião pública.
Bagé madrugou na insurreição: em 1872 é fundada a “Sociedade 28 de Setembro”, nome que homenageia a data em que foi promulgada a Lei do Ventre Livre, instituição ali sem resultados concretos, pois a atividade escravagista continuava seu exercício; mas o desejo, aliado à divulgação da república, tinha na professora Angélica Gonçalves Jardim uma prosélita que as disseminava para suas alunas (1878).
Em fins de 1883, o presidente da Sociedade Abolicionista Luso – Brasileira indica como seus delegados nesta cidade o General Joça Tavares, Barão de Itaqui; o promotor público Cornélio Teixeira de Magalhães; e o jornalista Jorge Reis.
No ano seguinte surge o Clube Abolicionista de Bagé, então com 16 sócios, que se instala em 16 de março de 1884, dirigida pelo capitão Rodrigo Nunes Galvão, Martim Bidart Filho, o coronel José Bonifácio da Silva Tavares, Zeferino Gomes de Freitas, Manoel Dias dos Santos e Jorge Reis. Desta instituição também foi presidente o cônego João Bittencourt.
Uma das primeiras notícias sobre o movimento bajeense é uma correspondência do juiz de órfãos Dr. José Júlio de Albuquerque Barros ao governo provincial relatando uma lista de escravos declarados livres (Diário de Pelotas, 25.01.1884); logo uma manifestação de Martim Bidart Filho ao intendente da cidade, expressando o regozijo pelo que acontecia no país e apregoando a criação de uma entidade que sintonizasse com o sentimento nacional, que, afinal, logo se organizou (Diário de Pelotas, 09.02.1884).
{AD-READ-3}Pelo relatório oficial que vinculava o pagamento das quotas do Fundo de Emancipação ao número de escravos, Bagé tivera 2.435 escravos, ficando atrás apenas de Pelotas (6. 526) e Porto Alegre (5.790), mas à frente dos demais 48 municípios gaúchos.
Finalmente, em 28 de setembro 1884, a cidade assinala-se como uma das primeiras a proclamar a libertação dos escravos, embora notícia de 1887 referisse a existência de 82 pessoas ainda em cativeiro.

