Deus em sessão (sem plano de saúde)
O analista ateu acordou no nada. Um nada confortável, com cheiro de café e existencialismo. À frente, um banco de praça flutuando e um senhor de barba branca, chinelos e um olhar que misturava ironia e ternura.
“Você é Deus?”, perguntou o analista, meio cético, meio carente.
“Depende. Você é real ou só uma projeção freudiana com diploma?”
Sentaram-se. O silêncio durou uns bons segundos, até Deus romper: “Você vive me negando, mas sonha comigo toda terça. Freud ia adorar esse conflito.”
O analista sorriu. “E Jung chamaria de arquétipo do Pai”. “Jung também achava que sincronicidade era quando dois busões passavam juntos. Grande místico de rodoviária”, respondeu Deus.
Falaram de música. Deus curtia Cartola. O analista, Jazz. Chegaram num acordo com Belchior.
“Vocês chamam isso de trilha sonora da alma. Mas vivem pulando faixa”, ironizou o divino.
Discutiram futebol: Deus era Gremista . O analista, Internacional. “Ah, então você entende sofrimento”, disse o Criador.
Falavam da vida, dos desejos, dos textos que dizem mais do que o falante, e do silêncio que, às vezes, grita.
{AD-READ-3}“Vocês falam tanto que o silêncio ficou desempregado”, comentou Deus, cruzando as pernas de maneira cósmica.
Vai aqui minha humilde homenagem ao Grande Luiz Fernando Veríssimo, hoje em resenha com quer que seja.

