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A voz do silêncio

Em 06/03/2026 às 13:53h, por Clara Silveira

Socorro, doutor, acho que a psicose me pegou mais uma vez! O inconsciente coletivo anda falando comigo. Tenho sonhado acordada, dormido confusa e vendo símbolos que eu não sei bem interpretar.

A culpa é do Livro Vermelho do Jung — aquele mesmo, de capa grossa, que pesa mais que trauma geracional. Comprei achando que era um oráculo moderno. Descobri um grimório hipnótico.

É como se aquela leitura fosse um mantra. A cada linha eu sentia a minha cognição se reestruturando e os meus sentidos sendo novamente despertados para o sútil. 

Sabe, tenho percebido a vida como um grande Teatro Mágico, cheio de cortinas que se abrem e fecham. Cada pessoa é um espetáculo ambulante, cheio de personagens contraditórios e inconstantes. Há o lado sério, o lado risonho, o lado que chora sozinho, o lado que dança no quarto. E ainda assim, a gente insiste em cobrar do outro (e de nós mesmos) uma unidimensionalidade impossível, como se todo mundo pudesse ser sempre coerente, previsível e decente.

Jung manda silenciar a alma, reconciliar os nossos Eus, ouvir o silêncio. Tipo dar uma mateada com os próprios demônios, sabe?!

Há tempos atrás, meu lado carente e meu lado cínico não podiam nem tomar um café juntos sem rolar uma agressão verbal. Mas, doutor, para minha alegre surpresa, tenho sentido um certo contentamento com os inquilinos que me habitam. 

Desde que eu saí do armário e me assumi como plateia e atriz, tenho rido de mim mesma enquanto tento entender os múltiplos rostos que visito. Deixei a chibata de lado. Hoje meus Eus vêm todos pro palco e agente faz um sarau reconciliatório. 

Tô até pensando em fundar o JungAnônimos, um grupo de apoio para pessoas em conflito com suas próprias almas. Um lugar para fazer um networking interno, um retiro em silêncio onde a gente escuta a própria sombra reclamando que nunca é ouvida.

Ah meu amigo, quem dera o mundo fosse menos tribunal e mais palco, onde as falhas, os risos inesperados e os devaneios tivessem entrada franca. Quem dera a gente aceitasse a complexidade do outro, sem exigir dele apenas uma máscara, a que nos parece certa naquele instante.

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Enfim, doutor, se eu começar a desenhar mandalas compulsivamente e conversar com seres arquetípicos no café da manhã, por favor, não manda me internar.

Talvez seja só o meu inconsciente chucro, enfim, querendo ser notado.

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