Bagé: a cidade forjada a patas de cavalo
Há gestos políticos que ultrapassam o momento da votação e ganham a espessura simbólica da história. A recente emenda à Lei Orgânica do Município de Bagé, aprovada por quinze votos a favor e nenhum contrário, que reconhece o Cavalo Crioulo como símbolo natural da cidade, é um desses gestos que não apenas fazem justiça ao passado — mas também projetam o futuro. Por isso mesmo, antes de continuar com o texto, deixo aqui meus mais sinceros aplausos aos vereadores bajeenses que, independente de partido político, aprovaram esse projeto.
Isso porque Bagé, antes de ser cidade, foi caminho. Foi pouso, foi travessia. Foi estância isolada, foi trincheira de fronteira. E em todos esses momentos fundadores, lá estava ele: o cavalo.
Mais do que um meio de transporte, o Cavalo Crioulo foi elo de ligação entre as distâncias imensas do pampa. Aproximou povoados, levou mensagens, construiu redes invisíveis de pertencimento entre homens e terras. Foi no dorso de um crioulo que se fundaram estâncias, que se firmaram fronteiras, que se escreveram os capítulos mais antigos da nossa história.
Não é exagero dizer que Bagé foi forjada a patas de cavalo — nas incursões brasileiras pela Banda Oriental, nas guerras platinas, na Guerra dos Farrapos ou na Revolução Federalista. Cavalos abriram caminho onde não havia estrada, sustentaram a lida no campo, deram forma à paisagem e identidade ao povo. Bagé sempre soube se sentir rainha sobre o trono de um cavalo crioulo.
Em 1932, quando criadores da região fundaram aqui a primeira entidade dedicada à preservação da raça, o país começava a reconhecer oficialmente o que nós já sabíamos há muito: que Bagé é o berço do Cavalo Crioulo no Brasil.
A aprovação da emenda agora reconhece isso por lei. E mais do que isso: reafirma que preservar símbolos é também preservar sentidos. A cidade que pensa seu passado com dignidade tem mais chances de construir um futuro com raízes.
{AD-READ-3}Ainda hoje o Cavalo Crioulo desfila por nossas ruas, trabalha nas nossas estâncias e brilha em provas de marchas, redomões ou no Freio de Ouro. O Cavalo Crioulo resiste e ainda hoje é um pilar da nossa produção, do turismo e da economia de nossa cidade.
Que essa conquista sirva de espora simbólica — para lembrarmos sempre que nossa identidade não está apenas nos livros de história, mas também na silhueta de um cavalo que galopa firme pelo tempo.

