A cor dos olhos da verdade
Aquele dia não seria esquecido na Vila São Bento. Dois mortos, quatro feridos e muita história.
A briga ocorreu pelos mesmos motivos pelos quais as brigas ocorrem desde que o mundo é mundo: inveja ou ciúme.
A Tunica, filha do Teobaldo, dono do maior bolicho do lugar, dava linha pro Hernane e pro Olavo, ao mesmo tempo. O Hernane era filho da Dona Ismália, costureira. O Olavo era neto de um chacreiro dali mesmo.
Resultado do brinquedo: os dois mortos numa peleia de adaga, e feridos os que tentaram apartar. A Tunica não quis mais saber de ninguém e o bolicho murchava a olhos vistos.
Vários anos e muita fofoca depois, numa bela tarde de novembro, entra na vila uma caminhonete Ford novinha, levantando poeira das estradas de terra. Para na frente do bolicho, que ficava na carreteira, a rua principal. Desce da caminhonete um moço trigueiro, de cabelos crespos curtos encaracolados e olhos azuis luminosos. Entra no bolicho, chega ao balcão e pede uma guaraná gelada.
Seu Teobaldo puxa a boina de crochê pra nuca, cofia o farto bigode e explica pro rapaz que eles não tem geladeira. Mas que tem a guaraná que ele pediu, quase gelada, porque mantém a bebida no poço de balde, atrás da casa. Todos os presentes, tomando canha ou vinho, ficam admirando aquela figura desconhecida na região, enquanto o bolicheiro despacha um guri de mandalete a buscar o guaraná.
– O senhor é o Seu Teobaldo? - Pergunta o moço, com o cotovelo esquerdo no balcão e olhando em volta.
– À sua disposição, seu Moço.
– O meu nome é Alberto, como o Albertinho da novela de rádio. Sou filho do Lucindo Costa, que comprou os campos da várzea do arroio Lajeado.
– Ah certo. Seu pai já mandou comprar mantimentos aqui. Sejam muito bem-vindos. Mas o seu nome não é por causa da novela, que terminou no ano passado?
– Não, senhor. Só dei o exemplo pra explicar. O meu nome é por causa do meu avô. Nós somos das missões. Resolvemos vir morar na fronteira porque os campos são mais baratos e muito bons pra criação.
As vozes chegavam muito claras aos fundos da casa, separada por um cortinado estampado. Tunica achou interessante aquele timbre de voz, que além do nome, se parecia muito à voz do Albertinho Limonta, do Direito de Nascer. Deu um jeito de espiar e se desconcertou com as belas feições do rapaz de olhos azuis.
– Mas o senhor vai tomar só esse guaraná, não vai querer uma cerveja?
– Fica pra outra a tal cerveja, minha gente é de má bebida. Mas trocando de assunto, eu sou Veterinário. Vou trabalhar na fazenda com meu pai, mas pretendo prestar serviço pra quem quiser aqui na região. O senhor tem telefone aqui no estabelecimento?
– Não temos, Dr. Alberto. Diz que a linha vai chegar no ano que vem. O mais perto onde tem telefone é em Bagé.
– Não tem problema. O certo é que quando alguém precisar de veterinário, podem mandar me chamar na fazenda.
– Será que o senhor podia dar uma olhada no meu cachorro, que anda adoentado? - Tunica saiu de trás do cortinado. Era uma moça morena, de olhos azuis e cabelos claros, presos em um coque no alto da cabeça
– Boa tarde, moça, meu nome é Alberto.
– Essa é minha filha, Antonia, Dr. Alberto. Cumprimente direito o moço que é recém-chegado, Tunica. Quem sabe outra hora ele examina o cachorro, deve estar cansado.
– Não senhor! Faço questão de examinar. Esse é meu trabalho e não enjeito proposta.
Foram os três aos fundos e a moça trouxe um cachorro barbudo, de caça, já perdendo os dentes de velho. Apresentava grandes falhas no pelo crespo, pele avermelhada e se coçava bastante. O rapaz examinou o animal todo, fazendo carinho em suas orelhas e falando, enquanto trabalhava.
– Olha Dona Tunica. Me parece ser sarna, em início de manifestação. Vou lhe trazer um pouco de remédio de banheiro de gado pra dar banho nele. Tem que lavar todo corpo, uma vez na semana, por quatro semanas, sem falhar. Só tem ele de cachorro aqui na sua casa?
– Sim, Dr. Só temos ele, que é mimoso e está velhinho.
– Pois muito bem. Se Seu Teobaldo me dá licença, amanhã eu venho trazer o remédio e fazer o primeiro banho pra mostrar pra Senhora.
– É senhorita, Dr. Alberto. Pode vir no más, que será sempre bem recebido aqui no meu bolicho. Quanto le devo a consulta do cachorro véio?
– Não deve nada. É um presente à sua filha.
O casamento foi uma festa bonita, na estância do Arroio Lajeado. Todo povo da região presente. O casal feliz, circundado pelos pais zelosos. Tudo em perfeita harmonia, como se os ecos do passado trágico fossem uma voz distante que o vento levou com a poeira dessas estradas do sul.
A vida seguia seu curso. Tunica ajudava a sogra na lida da fazenda e Alberto trabalhava com o pai e prestando serviço aos demais proprietários da região.
O primeiro filho, um menino, nasceu e morreu gritando, poucas horas após o parto. Com o segundo foi a mesma coisa, uma linda menina de olhos claros. Alberto levou Tunica a Bagé, depois a Porto Alegre. A criança não poderia mamar o leite materno de jeito nenhum, segundo a explicação dos médicos, e ainda havia risco.
{AD-READ-3}Muito cuidado e tempo despendido, nasceu um menino, forte e sadio, que mamou leite de égua desde os primeiros dias de vida. Tunica teve um sangramento que não parou. Não conseguiram chegar em Bagé a tempo. O luto instalou-se na estância e no bolicho da vila.
Enquanto crescia, mimado pelos avós, o menino de olhos castanhos muito vivos, era escorraçado pelo pai, que se entregara à bebida. Todos pensavam que aquele repúdio se devia à morte da esposa.

