Dona Gilda
Enfim chegara a hora do George e eu frequentarmos a escola. O emprego do pai na Prefeitura e as costuras da mãe faziam, apertadamente, sobrar um dinheiro para a gente se alfabetizar. Haviam os grupos escolares, os padres, o colégio da Dona Maninha. Mas na nossa zona, naquele pequeno/grande mundo que era a encruzilhada das ruas Bento Gonçalves e Marcílio Dias – com a Farmácia Ferreira, o velho poste de bronze, o consultório do Dr. Camillo e uma árvore na frente da casa do seu Eurico, onde se brincava de deserta – o destino de todos, a convergência solar, era o colégio da Dona Noca.
Era ali mesmo onde sua família se mantém, onde todos nós, guris de calças curtas, se dirigiam depois do almoço. Ao chegar na esquina da casa do Dr. Nicanor me esgueirava e olhava a Marcílio Dias, para ver se o Gabriel Brandão ou o Djalma Maurente já estavam nas portas de suas casas. E daí era uma corrida só, pois todos disputavam o lugar de honra no lado da professora, para que ela rabiscasse a tarefa no livro da gente, o que se constituía na pequena glória infantil.
Dona Noca era senhorial, com seus cabelos brancos bem penteados em coques, com sua voz firme, pronúncia impecável, uma odontóloga o magistério, o ensino aos fórceps, às anestesias.
Ao seu redor aprendia-se a geografia, a aritmética, a história, o português, sua disciplina era férrea, escassos folguedos nos eram reservados, as rédeas apenas se afrouxavam quando Dona Noca tinha de sair e a classe ficava entregue à Dona Maria, ao Fernando ou a D. Silvana.
Como o George já se alfabetizara sozinho, brincando com as letras das revistas, criativamente desenhando histórias, me fora reservado o noviciado com a Dona Gilda, a aula do fundo, onde se misturavam os pretendentes à admissão, ministrada por Dona Noca.
Foi com D. Gilda que se escondiam por trás das letras, o ritmo da tabuada, as contas mil vezes apagadas nos cadernos quadriculados. O feitiço do bê-á-bá, da eva que viu o ovo do queres ler. Muito falou comigo para aprisionar garranchos na linha dupla, que eles, subversivos, se negavam a acudir. Era doce, tranquila, desculpava as trepolias do Djalma e da Tatiana, nos acobertava quando a Dona Noca vinha abrir a porta para saber o porquê de tanto barulho.
Certa vez meu pai foi lhe propor um problema intransponível: ou pagava o colégio ou dava um sapato, pois os meus não aguentavam mais os remendos do seu Bell, dona Gilda preferiu me ver calçado e a conta se acumulou por muitos meses. Depois, quando nossa turma toda se foi adiante para o uniforme, o casquete, o talabarte dos padres, continuou sempre a nos acompanhar.
A gente sentia orgulho de vê-la nas missas, no mês de maio, nas festas religiosas, com as mãos entrelaçadas, o vestido branco e a fita de filha de Maria, era quem nos abrira as portas da vida.
Nunca nos perdeu de vista, mais longe e mais velhos estivesse. Que vez que outra, num eventual sucesso, lá vinha seu cartão de cumprimento, a letra caprichada, a palavra amiga, o incentivo.
Dona Gilda viveu sempre para os outros. Soube, que mesmo doente nunca deixou de socorrer os aflitos, de ajudar as suas velhinhas, de confortar, aguentando estoicamente um mal tão inadequado para uma vida tão cheia de dádiva e bondade.
Foi minha primeira professora, que entreabriu a cortina dos alumbramentos da infância, pedestal, base.
{AD-READ-3}Não a via há muito, contradição da vida/consumo que nos deixa tão pouco para o reconhecimento e a gratidão.
Nem a vi hoje, envolta de véu e flores, frágil santa, pedaço de um tempo e lembrança que também se extinguiu.

