José Obino e a Igreja Matriz
Tão ativas quanto as oficinas dos entalhadores, toreutas (arte de trabalhar a modelagem de metais) e santeiros, diz Athos Damasceno, eram a dos escultores marmoristas e canteiros, posto que à clientela do mundo vivo, havia a do “outro”, à espera de lápides, jazigos e mausoléus. E aqui desponta o nome de José Obino que, além de competente arquiteto, viria a ligar-se ao ramo da marmoraria, ganhando sólido conceito e se projetando, através de seus seguidores. Obino nasceu na Itália, em 1835. Em 1861 chega à Província, sediando-se em Bagé. Não se conhece a vida pregressa nem os descendentes informam com segurança sobre seus estudos na Europa. Mas se lá não frequentou com regularidade cursos ou escolas, alude ainda Damasceno, nem chegou a diplomar-se em alguma academia, é fora de dúvida não ser pequeno seu cabedal de conhecimentos, quando para cá se deslocou, e seu preparo na arte de construir: prova o projeto e construção da Igreja Matriz na cidade fronteiriça, empreitada que tomou a si, alguns meses após sua chegada em que se houve exemplarmente, “fazendo obra de envergadura, capaz de reputá-lo como profissional de recursos variados e sólidos. Com efeito, a Igreja de São Sebastião, naquela cidade, é um templo imponente sob todos os aspectos, podendo ser considerado sob todos os aspectos o mais belo da Província. ”
“A alterosa matriz, cuja conclusão se verificaria em setembro de 1863, é construção de evidente saliência arquitetônica, e dá ingresso a José Obino no reduzido número de autênticos profissionais do ramo com que então contava o Rio Grande do Sul. Concebida em linhas simples e harmoniosas, dotada de duas torres, a igreja tem a estatura de uma verdadeira obra de arte. Em seu interior, amplo e severo, dispõe, além do altar-mor, de oito altares laterais e, a par de trabalhos de talha que a enriquecem, conserva ainda a antiga e histórica imagem de seu padroeiro, trazida provavelmente de Portugal no princípio da centúria e transladada para o povoado recente em 1812. ”
Obino não permaneceu muito tempo em Bagé, e a despeito da reputação granjeada e do apreço que era tido, transfere-se em 1867 para Porto Alegre, ambiente mais favorável ao desenvolvimento de sua profissão e às suas ambições. Residiu na Rua Riachuelo, proximidades do Teatro São Pedro, onde inaugurou escritório “oferecendo seus préstimos para a execução, por empreitada ou administração, de todo e qualquer trabalho de arquitetura, tais como igrejas, edifícios públicos, casas residenciais e de campo, bem assim mausoléus, túmulos, etc”. Infelizmente não teve vida longa, falecendo aos 44 anos de idade, em 9 de junho de 1879, apenas doze anos após sua chegada.
Damasceno informa que no Arquivo Histórico da Divisão de Cultura da Secretaria de Educação do Estado ainda se conservavam, entre outros projetos, plantas e esboços de José Obino, além do desenho da fachada da Igreja São Sebastião. Em realidade, como esclareceu Tarcísio Antonio Taborda, tal desenho e planta baixa se encontram no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.
E como dito em artigo passado, a publicação da obra seminal do Tarcísio sobre a “Igreja de São Sebastiao de Bagé”, capa de Glauco Rodrigues, está completando seu Cinquentenário e aguardando necessária reedição. E com ela toda uma constelação de atos, palestras, cursos, visitas guiadas que se organizem, com certeza, pois não há na Rainha da Campanha monumento mais importante que seu primeiro templo.
O maior símbolo de Bagé é, sem dúvida, a sua Igreja Matriz.

