Guia para a queda do Ocidente
O senhor sabe, doutor, eu comecei a escrever pra ver se organizava as ideias. Então, de tanto imaginar o mundo desmoronando em câmera lenta – do tipo que vem com trilha sonora dramática e efeitos especiais que fariam Spielberg babar – decidi criar um guia para a queda do Ocidente. Nada exagerado, algo bem prático, pra ver se me convenço de que estou bem preparada pra quando tudo for pro espaço. É por isso que lhe escrevo, preciso de dicas, doutor.
O que que eu faço com esse peso todo da civilização desabando sobre meus ombros?
Já pensei em várias abordagens. A primeira seria ignorar o colapso. Algo bem “vou ali tomar um café e fingir que o Ocidente não tá derretendo”. Mas, francamente, meu lado ansiosa não deixa. Meu cérebro é tipo uma CNN 24 horas do juízo final. “Últimas notícias: polarização política, crise econômica, moral em baixa, derretimento das calotas”.
Como é que eu desligo essa TV interna, doutor?
Aí me veio a ideia do desapego. Desapegar de toda essa loucura do Ocidente e ser mais Zen, algo tipo: "Quando a civilização entrar em colapso, medite e aprecie o espetáculo". Como quem assiste a um pôr do sol, mas, ao invés do sol, são instituições caindo aos pedaços e valores virando pó. Só que, na prática, minha tentativa de desapego parece mais com alguém que acende um incenso e logo em seguida grita: "MEU DEUS, TÁ TUDO PEGANDO FOGO!"
Então pensei numa saída estratégica: voltar para China. Mas sabe como é, a Ásia também tem seus problemas. Além disso, tenho medo de que depois de todo o esforço, acabe descobrindo que o Leste também está em crise existencial. Vai que por lá também já estão pensando em escrever um guia para a Queda do Oriente?
O senhor sabe que eu tenho um talento natural pra sofrer antecipadamente. Acho que já nasci com um roteiro apocalíptico na cabeça. Então, estou aqui, desesperada por uma solução.
{AD-READ-3}Mas, por favor, não me venha com aquela do Spengler – que diz que tudo é orgânico, que civilizações nascem, crescem e morrem como plantas. Eu sou uma pessoa visual, doutor! Agora toda vez que lembro disso, só consigo imaginar o Ocidente como uma samambaia murchando no canto da sala.
Aguardo ansiosa por dicas.

