A polêmica nas redes sociais dos bebês reborns
Caro(a) leitor(a), diante da discussão que circulou nas redes sociais sobre os bebês reborns, trago reflexões de cunho social e jurídico sobre esse fenômeno mundial representado pelos bonecos hiper-realistas, que vêm cativando não apenas crianças, mas também adultos. As imitações de recém-nascidos despertam sentimentos e conexões que, muitas vezes, vão além da nossa compreensão moral e racional.
Não é por acaso que o mercado dos bebês reborns vem crescendo substancialmente no Brasil e no mundo. Crianças sempre gostaram de brincar com bonecos, mas o fato de esses apresentarem características muito semelhantes às de bebês reais — como pele macia e cabelos implantados fio a fio — impulsionou de forma expressiva as vendas desse produto.
As críticas envolvendo o brinquedo, que circularam nos últimos dias pela internet, provocaram indignação generalizada, especialmente diante de notícias sobre pessoas que teriam levado seus bebês reborns para atendimento em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), alegando que eles “não se sentiam bem”, ou para que fossem vacinados em Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
A repercussão chegou ao Congresso Nacional, onde foram apresentados três projetos de lei para regulamentar o tema. Entre as propostas estão a proibição de atendimento aos bonecos por profissionais da saúde, a aplicação de multa a quem utilizar o brinquedo para obter benefícios como prioridade no atendimento e, por outro lado, a “promoção de acolhimento psicológico a pessoas que desenvolvem vínculo afetivo intenso com objetos de representação humana”.
A intenção desta colunista é destacar que, embora existam pessoas que utilizem os reborns como meio de renda — divulgando vídeos sobre a rotina dos bonecos, como se fossem reality shows — ou mesmo aquelas que, munidas de má-fé, os utilizam para gerar transtornos e confusões, também há quem seja, de fato, beneficiado pelo vínculo emocional criado com esses objetos. É o caso, especialmente, de pessoas idosas ou acometidas por condições de saúde mental, que experimentam efeitos terapêuticos por meio dessa interação.
{AD-READ-3}Como exemplo, os bebês reborns podem aliviar a angústia ao servirem como objetos de apego para pacientes diagnosticados com demência, criando um ambiente mais tranquilo e confortável. Estudos atuais revelam que terapias com bonecas podem reduzir comportamentos negativos como agitação e irritabilidade, além de melhorar a comunicação e o estado emocional dessas pessoas. Isso ocorre porque os bonecos oferecem um vínculo afetivo único, proporcionando conforto emocional similar ao de um bebê real. Os mesmos estudos mostram que esses bebês reborns vêm se tornando uma ferramenta eficaz na redução da ansiedade, agitação e comportamentos desafiadores em pessoas com Alzheimer, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida desses pacientes.
No campo jurídico, é certo que os bebês reborns — que, por óbvio, não possuem direitos, sendo considerados bens móveis — podem ser utilizados como objetos de coleção, ferramentas terapêuticas ou vínculos afetivos. No entanto, seu valor sentimental os distingue de outros bens móveis, o que tem gerado desafios até mesmo em processos de dissolução conjugal, em que a partilha desses objetos se torna um campo de tensões emocionais. Essa realidade já está presente em alguns tribunais e, diante da novidade do tema, exigirá do Judiciário sensibilidade para considerar o impacto psicológico das partes envolvidas.

