A televisão em Bagé
Há anos publiquei um texto contando a trajetória da implantação da televisão em Bagé, fato que hoje alguns ainda desconhecem, o que exige repetição.
Foi árdua luta empenhada por Aracely dos Santos Menezes e um grupo de abnegados. Acompanhei os acontecimentos como testemunha, pois aquele bem-sucedido empresário cumpria outra penitência diária numa das vice-presidências do Guarany, aceitando de pronto o convite que lhe fizera; e onde se houve com a eficiência de sempre.
Na época tudo começara através de um contrato com a Empire, firma que se comprometeu a instalar uma torre para captar o sinal de outros municípios desde que o comércio local absorvesse determinado número de aparelhos por ela fabricados, em exclusividade que compensasse o investimento: não é preciso dizer que muitos roeram a corda e passaram a negociar outras marcas, deixando a Eletro Máquinas pendurada no pincel.
Isso não inibiu o sacrifício dos pioneiros que organizaram o Clube de TV que, apesar dos sacrifícios e decepções, levaram avante o projeto com real proveito para a população que, mais tarde, não se submeteria ao monopólio dos canais fechados, trazendo o benefício até os dias atuais.
Como ia quase diariamente ao escritório do Aracely, um dia vislumbrei um contrato em que ele, Djalma Pimentel Maurente, Antoninho Ferreira, João Henrique Gallo e Pedro Jardim estruturavam uma possível TV Bagé que nasceria dez anos após, ocasião em que a atual concessionária assomou-se como sócia majoritária e talvez única.
Como em tudo há de se ressaltar o trabalho e desprendimento pessoal de algumas pessoas que subiam o morro para substituir as válvulas que queimavam ou ventos fortes que deslocavam a antena, lá em baixo as imprecações e cobranças dos usuários que ficavam sem a novela ou o futebol.
Recordo Libório Lo Iacono que, além destes dissabores e das inadimplências de muitos associados, ainda estava costumeiramente em Porto Alegre batalhando pela TV Piratini, que só não trouxe pela incompreensão dos Associados.
Depois Antonio Carlos Germano, que sem abdicar de seus afazeres inapiários, era assediado para trazer a TV Guaíba, também ele um anacoreta do clube que comeu o sal da terra e o pão que o diabo amassou lutando para assegurar a iniciativa; e para tornar realidade que a TV Difusora aqui cravasse suas raízes com equipes e estúdios para a transmissão.
Tempos em que as imagens, embora pouco nítidas e com chuviscos, deleitavam as famílias; sucediam-se progressos nos tubos e móveis que as abrigavam; tempos também de incertezas, frequentes os furtos de fios ou arrombamento da casinha no cerro.
Muitos construíam elevados campanários voltados para a fronteira na esperança de conquistar os programas uruguaios ou argentinos, o que se transformava em assunto no café.
Hoje, com a distância e situação cômoda, tende-se a imaginar que tudo saiu de geração espontânea, que apareceu de repente, ou foi fruto da globalização precoce. Pois não é verdade, senhores e senhoras.
Aplausos e agradecimentos aos visionários que trouxeram essa modernidade.
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PS. Esse artigo foi publicado em 2014, e se referia a eventos acontecidos nos idos de 1969, quando foram instaladas as “repetidoras da televisão”. Por justiça relembro os pioneiros da ideia em Bagé; e mais, os sacrificados lidadores que subiam ao morro para manter vivos os sinais da TV.

