Manifesto antirromântico
Doutor, resolvi declarar guerra ao romantismo. Mas calma, não é que eu tenha virado uma solteirona amargurada, juro. É que cheguei à conclusão que essa é a única forma de salvar o amor.
Dia desses tava eu tentando relaxar, vendo uma comédia romântica, quando minha neurose resolveu se aparecer. Enquanto o mocinho pedia a mocinha em casamento eu só conseguia pensar no impacto devastador que o romantismo causou na nossa capacidade de levar vidas emocionais bem-sucedidas.
Mas veja bem, não é que eu não reconheça a importância do romantismo – Deus nos livre daquele contratualismo que ditava as regras das relações. Os românticos até nos oferecem um ideal bem intencionado de como os relacionamentos devem funcionar, mas ele é fatalmente distorcido, porque nos afasta da natureza humana e exige da vida uma castidade fantasiosa.
Esse amor das convenções sociais oferece uma fórmula padronizada: casar, ser monogâmico, viver a vida conforme as expectativas. E se a gente não segue esse roteiro, somos rotulados como incapazes de amar.
Pensa bem, somos confrontados com expectativas quase impossíveis e coagidos pelas regras sociais a firmar um contrato sem saber claramente seus termos. E nessa dança de expectativas, mentiras e omissões, o que nos resta é uma tentativa desesperada de não ferir quem a gente ama.
Sabe, o mundo civilizado exige de nós um autocontrole quase absurdo. Somos ensinados a apresentar ao outro versões polidas, limpas e editadas de nós mesmos. E doutor, a forma como nos ensinam a viver é a forma como nos ensinam a amar: interpretando papéis!
Vivemos vidas inautênticas e amamos amores inautênticos.
Somos todos puxados pra lá e pra cá por nossas escolhas, pelos nossos desejos e pelas nossas confusões mentais. E sejamos honestos, meu amigo, pra fazer um relacionamento durar, quase sempre temos que ser desleais às emoções românticas que nos colocaram nele em primeiro lugar.
Nossos afetos são vulneráveis porque raramente descem a níveis profundos de comunicação. No fundo, são amores trágicos, porque distantes de um entendimento autêntico entre os que se amam.
Mas as falhas não tornam o amor menos digno, nem as imperfeições tornam os sentimentos menos verdadeiros. A gente ama como pode, com todas as limitações e contradições que nos constituem.
{AD-READ-3}Doutor, o amor é tipo aquele bolo que a gente tenta fazer seguindo a receita, mas que nunca dá certo. Fica meio torto, abatumado, mas mesmo assim a gente come e acha gostoso, porque foi a gente que fez. O segredo é aceitar que ele nunca vai sair do jeito que o livro manda. E tá tudo bem.

