O Consumo Religioso
A Escola de Frankfurt, uma escola de pensamento filosófico e sociológico, que ocorreu na década de 1940, advertia para os riscos da massificação da produção cultural, ou seja, as artes sob o domínio do mercado empresarial, perdendo a sua origem popular e passando a priorizar o lucro. Naquela época, os meios de comunicação em massa eram o rádio, a televisão, que se popularizou logo após, na década de 1950, nos Estados Unidos. No Brasil, somente ocorreu a partir da década de 1970.
Hoje, a difusão de notícias e entretenimento em grande maioria acontece por intermédio da internet, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE, em 2023, mais de setenta e dois milhões de domicílios brasileiros tiveram acesso à internet (92,5%), onde o consumo de informações ocorre através de grandes plataformas digitais, que na maioria são gratuitas. Ocorre que para serem gratuitas, necessitam propagarem desejos de consumo, produtos e serviços de empresas que investem nas grandes plataformas com o objetivo de angariar vendas e lucros. Até então, nada diferenciado do que já ocorria na televisão com os produtos materiais, mas hoje não está sendo consumido somente os produtos materiais, mas também produtos imateriais, um símbolo que vem agregado ao produto ou serviço, por uma crença de status, uma funcionalidade social.
Esta percepção foi absorvida por alguns religiosos, promotores do sagrado, através de bens simbólicos, que apresentam com destaque a estética e a ostentação de produtos luxuosos, promovendo o desejo, que pode ser materializado em produtos ou serviços, desde produtos religiosos clássicos, como livros, CDs de musicas, camisetas, até os serviços de coach religioso e cursos, como por exemplo o curso para transformação de homens melhorarem o seu casamento, que combina pregações religiosas e atividades físicas intensas na montanha, com o custo de R$ 81.000,00, ou espaço VIP Very Important Person (pessoa muito importante), para separar os fiéis famosos (jogadores de futebol e cantores sertanejos) dos fiéis não famosos. Entre os benefícios estão a reserva de lugares na primeira fileira, estacionamento exclusivo e entrada diferenciada, para não serem incomodados.
As práticas relatadas descolam muito do que se espera de uma religião, ou seja, a crença (fé) na existência de um poder superior, na devoção de tudo que é considerado sagrado, através de um conjunto de doutrinas e orientação de valores. O que encontramos nos exemplos são práticas similares às comerciais, transformando o fiel em um consumidor-fiel, ainda mais vulnerável do que o conceituado no Código de Defesa do Consumidor, em razão da sua crença, da sua fé, o que deve ser acompanhado pelo órgão de proteção do consumidor para evitar desequilíbrios e abusos.

