Lemieszek e sua enciclopédia bajeense
Era um verão carioca. Anos atrás. Como sempre carregava livros para ocupar os momentos de descanso e silêncio. O primeiro selecionado foi “Bagé. Relatos de sua história”, de Cláudio de Leão Lemieszek. Agora, ao revê-lo, deparo com os sublinhados de nomes ou fatos para chamar minha própria atenção. E mais, a contracapa, antes virgem, foi engravidada por um dicionário de referências a pessoas e eventos, sinais de anotação que pontua registro e lembrança para futuro proveito. Lembro que logo busquei um cartão – não era ainda tempo de whatts ou rede social - com fito de enviar ao autor o entusiasmo que o conteúdo despertara e o apelo para que a iniciativa tivesse seguimento. Hoje, anos passados, a mesma sensação se renova com a publicação de um terceiro volume da coleção, agora referente aos primórdios do século XX. E queira a Providência que mais relatos se sucedam.
Nas férias sabáticas deste ano, num dos encontros na livraria café, conversava com o escritor sobre a relevância da primeira publicação da editora Praça da Matriz, imaginada por mim para recuperar trabalhos históricos do passado e incentivar vocações contemporâneas, compilação chamada “Governos e Governantes de Bagé”, também iniciada por ele. O exemplar inaugural tratava do período administrativo entre 1964 e 1978; e, logo se vê, de um instante difícil e penoso para a cidadania bajeense. Relendo a minudente pesquisa ali feita não há como deixar de considera-lo como tópico para historiografia local e fonte singular para o exame da época. Na ocasião alcunhei o autor de “Jorge Reis” moderno, deixando claro que este se debruçou em dados obtidos pelo exercício de importante função municipal, enquanto Lemieszek tratou de debulhar os informes jornalísticos e depoimentos, tudo tratado com cirurgia adequada de um historiador imparcial. Isso permite ingressar em tema que habitualmente costumo aportar em convívios memorialísticos: a importância do detalhe. O exemplo que reitero é de um processo judicial. Por mais antigo que seja e mais distante pareça a causa, sempre haverá ali algum indício que vai ser aproveitado como subsídio para elucidar lacuna estranha aos objetivos dos autos. Cultive-se o exame do detalhe.
Muitos entendem que fazer história é escrever um massudo conjunto sobre determinado acontecimento, esgotando as nascentes e a literatura apropriada. E nisso tem razão. Todos sempre aspiram chegar a uma grande obra. Mas também merecem a mesma vassalagem os que se aprofundam num elemento singular, desbravando sua originalidade e trazendo à superfície as circunstâncias que o envolvem, publicizando a narrativa.
Aqui, a investigação febril e competente da notícia jornalística que esconde um universo de eventos que se desconhece; de personagens de que não se ouviu falar; de heróis e atos sombrios, mas também de cidadãos que deveriam habitar os panteões da honorabilidade e dos que arquitetaram, na modéstia de suas existências, o patamar do progresso e do desenvolvimento. Como se saberia do trem, do cinema, da luz e do telefone; do matadouro e do hipódromo, sem a inspeção em velhos periódicos e carcomidos jornais? Como saber dos balões e aviões que assustaram nossos antepassados sem abrir com cuidado as folhas amarelecidas de antiga gazeta? Como dimensionar a conduta de dirigentes ou gestores sem dar atenção ao que deles se descobriu no antanho?
Os presentes relatos concentram temas em capítulos específicos como ocorre em relação ao comércio e indústria, as interessantes e curiosas ocorrências policiais, a saúde dos conterrâneos. Ressalto, para orgulho da bajeensidade, o intenso movimento cultural e social em Bagé, base para que a cidade mantenha essa elogiável tradição. Mais que tudo, impõe-se referir, como Lemieszek costuma fazer em seus livros, a atuação destacada e o protagonismo da mulher bajeense daquela época, pioneira em iniciativas, independentes no agir comunitária. Mulheres que integraram a Cruz Vermelha; que dominaram a diretoria da Orquestra Filarmônica, como Francisca Torrescasana, Tudinha Alvim, Rosalina Ilarreguy, Lia Sá, Gerogeta Mourgues ou Mariana Santayana. Ou seja, a primeira diretoria da entidade era inteiramente feminina! Ou as moças que disputaram um torneio de tiro ao alvo, como as senhoritas Esther Magalhães, Ondina Frota, Diva Pimentel, Ema Moraes, Mimosa Caminha, Branca Sarmento, Lola Almeida, Lia Sá e outras. E notadamente as que fundaram o “Law Tennis Club”, sob a presidência de Lia Sá e mais Lúcia Guilayn e Adelaide Gontan. A primeira e histórica partida de tênis aconteceu em 26 de abril de 1908, disputada na Praça Rio Branco (hoje Desportes) entre a dupla Celina e Corina Garrastazu contra Adelaide Gontan e Lia Sá. Sem falar-se no ringue de patinação –outro importante modismo – chamado “Guarany”, na Rua General Osório. A primeira sede estava situada na esquina da atual Barão do Amazonas com Salgado Filho. Eram vitoriosos os jovens Onésimo Ratto, Túlio Lopes, Pedro Colares e Zezé Moglia. Entre as mulheres Branca Pereira, Lélia Souza, Fafá Vinhas e Leda Arruda. Faço questão de anotar tais nomes pois haverá leitor que encontre entre eles algum ancestral ou honorável parente. Mas insisto em enfatizar a importância do naipe feminino, referindo mulheres que foram ícones naqueles tempos e a quem o autor dedica um justo capítulo de mérito. Enfim, os assuntos, isolados, podem constituir verbetes de uma enciclopédia bajeense. Aplauda-se mais uma produção histórica seminal na lista de quem, como Lemieszek, já goza de notória autoridade no escrínio da memória local.

