A história da Santa Casa de Caridade de Bagé
A Santa Casa de Misericórdia é uma irmandade que tem como missão o tratamento e sustento a enfermos e inválidos, além de dar assistência a “expostos” – recém-nascidos abandonados na instituição. Sua orientação remonta ao Compromisso da Misericórdia de Lisboa, composto por 14 obras de misericórdia, sendo sete delas espirituais – ensinar os simples, dar bons conselhos, castigar os que erram, consolar os tristes, perdoar as ofensas, sofrer com paciência, orar pelos vivos e pelos mortos - e sete corporais – visitar os enfermos e os presos, remir os cativos, vestir os nus, dar de comer aos famintos e de beber aos sedentos, abrigar os viajantes e enterrar os mortos. Todas as obras possuem fundamentos na doutrina cristã, como nos textos bíblicos do Evangelho de São Mateus e as Epístolas de São Paulo e demais doutores da Igreja Católica, ou então provêm de tradições de povos antigos que foram incorporadas ao Cristianismo.
A instituição remonta à fundação, em 1498, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, em Portugal, por Frei Miguel Contreiras, com o apoio da rainha D. Leonor, de quem era confessor. A Rainha D. Leonor, viúva de Dom João II, passou a dedicar-se intensamente aos doentes, pobres, órfãos, prisioneiros e artistas e patrocinou a fundação da Santa Casa, instituindo a primeira legítima ONG do mundo.
A instituição surgiu a partir da remodelação da Confraria de Caridade Nossa Senhora da Piedade, que era destinada a enterrar os mortos, visitar os presos e acompanhar os condenados à morte até o local de sua execução.
As Santas Casas constituíam-se no principal instrumento de ação social da Coroa portuguesa, e a sua criação acompanhou o estabelecimento dos primeiros poderes governamentais. No Brasil, a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia surgiu ainda no período colonial, instalando-se em Santos desde 1543. Com a chegada da família Imperial em 1808, iniciou-se o movimento para instalar uma Santa Casa no Rio de Janeiro concretizada em 1840.
Em Bagé, a ideia foi colocada em prática em 1870, quando foi lançada a pedra fundamental da Santa Casa de Caridade. A história iniciou-se quando os médicos Dr. Penna e Dr. Albano de Souza, juntamente com farmacêutico Serafim dos Santos Souza, fundaram o primeiro Hospital de Caridade de Bagé na atual General Osório.
O hospital chegou a possuir vinte leitos, proporcionando assistência aos pobres, pois as pessoas ricas e com posses eram tratadas em casa. Com o tempo se fez necessário construir um hospital maior. Foi então que, José Facundo da Silva Tavares, em 1873, doou quinze terrenos, sendo construído o novo hospital. Seu pai, o Visconde de Cerro Alegre também doou grande quantidade em dinheiro, além de angariar apoio da comunidade.
Em 25 de março de 1883, era inaugurada a Santa Casa de Caridade de Bagé, sendo nomeado seu primeiro provedor, o Cônego Bittencourt. O sonho dos também fundadores Dr. Penna e Dr. Albano juntamente com o próprio Bittencourt estava concretizado.
Na Santa Casa recém-inaugurada, prestou importantes serviços à comunidade o enfermeiro Preto Caxias. Sua capacidade de trabalho era notável pela comunidade, pois ele desdobrava-se como enfermeiro, zelador e transportador de doentes. Em 28 de julho de 1906, desembarcavam em Bagé três irmãs que assumiram a parte da Enfermagem e da Administração da Santa Casa, onde organizaram e ampliaram o hospital, construindo lavanderia, necrotério e capela.
Foi criado, em 1908, o Pavilhão dos Tuberculosos, sendo que, em 1910, estabeleceu-se a comunicação entre pavilhão e hospital. Em 1911, foi nomeado como cirurgião honorário da Santa Casa de Caridade de Bagé, o Dr. Nabuco de Gouvêa. Em 26 de março de 1916, foi inaugurado o segundo piso da Santa Casa, para nele funcionar o Hospital de 1° Classe, onde nesse pavimento havia uma sala de operação, uma sala de esterilização e, ao lado, 13 quartos com sala de espera e celas para doentes pobres operados, uma espécie de quarto separado.
O hospital era mantido por caridade da população de Bagé e alguma ajuda do governo. Em volta do hospital, existia uma chácara que fornecia frutas, verduras, leite, onde haviam 5 vacas, porcos e galinhas, para manter a alimentação dos pacientes. Em 1921, foi inaugurada um sino na antiga capela, porém em 1922, ela foi demolida, dando lugar a atual capela inaugurada em 1925, chamada de Capela do Sagrado Coração de Jesus.
Em 12 de outubro de 1931, foi inaugurado o Pavilhão de Isolamento com o discurso do Monsenhor Costábile Hipólito e o provedor Estácio Azambuja. Em 1933, foram inaugurados mais dois pavilhões: Marques do Herval e Salão Manoela Bidart. Na ocasião houve missa campal, após a chegada da procissão. Em 1939, foi inaugurado o Pavilhão do Asilo de Mendigos da Santa Casa – Asilo Auta Gomes e José Gomes. Durante todo esse tempo, a Santa Casa passou por diversas reformas, sempre com a intenção de adequar de acordo com a evolução da ciência. Em 21 de junho de 1965, foi reconhecida pelo Governo Federal, como Utilidade Pública, se tornando uma importante instituição em toda a região.
Em frente à Santa Casa, há uma praça, inaugurada em 12 de setembro de 1970. Em 1985, foi colocado o busto de José Gomes Filho, um dos grandes colaboradores das melhorias do hospital. Atualmente, a Santa Casa está vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS), mas também atende particular e por convênios, fazendo parte da instituição, o Serviço de Radioterapia e também o Pronto Socorro.
{AD-READ-3}Referências:
Fagundes, Elisabeth Macedo de. Inventário Cultural de Bagé. Porto Alegre. Praça da Matriz, 2012
Salis, Eurico – História de Bagé – Livraria do Globo, 1955

