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A autenticidade de uma morta-viva existencial

O que eu faço, doutor? Cheia de reflexões, crises existenciais e dilemas cotidianos, a personagem escreve para seu analista. Entre devaneios filosóficos e pitadas de humor, ela tenta entender a si mesma, o mundo ao seu redor e a loucura do ser humano. Aqui, o banal se encontra com o profundo, e o riso caminha ao lado da angústia.

Em 21/11/2025 às 14:49h, por Clara Silveira

Doutor, hoje acordei com uma certeza: eu, definitivamente, sou inautêntica. Eram 7 da manhã e já estava tomada por uma angústia profunda. A centelha da crise existencial da vez surgiu enquanto eu tentava decidir se colocava café ou chá na xícara. Observando a chaleira chiar, me peguei refletindo sobre o abismo da escolha e da liberdade. A pergunta não era mais “café ou chá?”, mas “por que café? E por que chá?”.

Decidi por café, claro. No mínimo seria mais autêntico ao meu estado de espírito. Tomando o primeiro gole amargo, percebi que aquele sabor não era bem o que eu queria. Oh Man! O coletivo impessoal certamente tinha interferido no meu livre arbítrio, e eu, um ser alienado, havia sucumbido à expectativa da sociedade que diz: “Tome café, é isso que pessoas produtivas fazem”.

Foi aí que lembrei que Heidegger dizia que a angústia – essa sensação de vazio que toma conta quando a gente percebe a enormidade da liberdade humana – é o caminho. Então, pensei comigo: “Hoje vou me angustiar com gosto! Nada de escapar pra distrações mundanas, nada de redes sociais, nada de TV. Hoje a angústia será minha fiel escudeira”. Afinal, nada mais autêntico do que começar o dia pensando na própria insignificância.

Saí de casa me sentindo um ser elevado, uma alma que caminhava entre a horda de mortais inautênticos, todos ocupados com suas vidas impessoais, enquanto eu, superior, meditava sobre o abismo.

Não demorou muito e minha profundidade existencial foi interrompida por um cachorro que me cheirava insistentemente. Olhei pra ele e pensei: “Será que ele é autêntico? Ou vive no modo das Man canino, guiado pelos instintos que a sociedade impôs sobre ele?”. Ele latiu e a dona puxou a coleira, murmurando algo sobre “gente esquisita”. 

Como eu ia explicar pra ela que eu estava vivendo uma experiência fenomenológica importante naquele momento? Segui em frente, doutor, determinada a não deixar aquilo me abalar.

Cheguei ao trabalho, já um pouco menos grandiosa que antes. A gente até tenta ser autêntica, mas o e-mail nos puxa de volta. E a cobrança do chefe? Nem se fala. Lá estava eu, empurrando minha rocha como um Sísifo de escritório, perdida entre relatórios que me pareciam tão existencialmente vazios quanto a vida cotidiana que Heidegger tanto condenava.

Resolvi tomar mais café – outro erro, mas dessa vez aceitei, resignada. Fui até a máquina e, no meio da fila, um colega me perguntou casualmente: “Como anda a vida?”

Até pensei em responder a verdade: “Estou profundamente angustiada, sentindo o peso da finitude, refletindo sobre o Ser-para-a-morte, mas tentando viver de forma autêntica, apesar das pressões externas”. Mas, claro, doutor, o Man dentro de mim, essa impostora sociável, respondeu: “Tudo na paz e contigo?” Virei uma boneca de ventríloquo de dar pena. 

Uma reflexão incômoda pairava sobre mim como uma nuvem: “eu, um Ser-no-mundo, estou presa nas teias de convenções e distrações, enquanto a verdadeira autenticidade, esse ideal inalcançável, escorre pelas minhas mãos como o tempo que eu tento tanto entender”.

Ao final do dia, no elevador, com aquele silêncio constrangedor entre vizinhos, mais uma vez o abismo da existência me tomou: "Será que eles também vivem no modo das Man?". Resolvi quebrar o gelo e perguntar: “E aí, já se sentiram inautênticos hoje?” 

Eles me olharam com uma cara de quem já havia passado por todos os níveis de cansaço possíveis. Um balançou a cabeça. O outro fingiu que a pergunta não existia. E, com isso, entendi: talvez a verdadeira autenticidade estivesse em aceitar que, às vezes, até a angústia pode esperar até amanhã.

Cheguei em casa, joguei a filosofia na estante e liguei a TV. Afinal, ser inautêntica tem suas vantagens — pelo menos quando o dia foi longo.

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