Natal
Certas pessoas são abençoadas pelo Natal.
A alegria dos sinos se aninha em seus corações.
Em minha casa, Mariazinha, minha irmã e primas, montavam na sala humilde presépio.
Ovelhinhas de côdea de pão, e a Virgem, José, o Deus Menino e os pastores renascidos de uma caixa de sapatos, completavam a devoção.
Uma estrela feita com a embalagem prateada de chocolate brilhava tonta sobre os céus da piedade.
Na noite natalina a avó e os tios saiam para a Missa do Galo.
E eu ficava só na casa que mal ou bem era o meu presépio.
Na minha imaginação um galo com penas cor da aurora se punha a cantar, frente ao altar, na hora exata.
A família regressava da missa e eu fingia que estava dormindo.
A triste melodia do bater dos ferros do balanço embalados pelo vento, na Praca Esporte, ainda hoje se faz ouvir em minhas horas daninhas.
De manhã, a algazarra das crianças com seus presentes, bicicletas, bolas, patins.
Eu ganhava pãezinhos em formato de galo, ovelhinha, com olhos de feijão encravados o nariz.
Se hoje me sensibilizam os pãezinhos da avó, a seu tempo, me humilhavam.
E assim ficou o Natal em mim, com melancolia, despojado de alegorias mas preservados os seus mitos sagrados.
{AD-READ-3}E faço filmecos natalinos para me sentir convidado a esta festa da natividade.
Em vão tentamos fugir de nossa infância, mas ela corre mais rápido que nossos trôpegos passos.

