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Colunistas

Guilherme Collares

  • Professor de Medicina Veterinária na Urcamp | Doutor em Parasitologia
  • guilhermecollares@hotmail.com

Tem que tu

Em 19/11/2025 às 14:02h, por Guilherme Collares

Despertou. Era noite. Não sabia onde estava. Começou olhando fixamente um crucifixo, na parede da frente da cama, na penumbra. Não era o seu quarto. Aquele cheiro forte de desinfetante, conhecido. Como teria vindo parar ali? Tentou se mexer, levantar. Não conseguiu. Não lembrava de nada. Forçava a mente e não entendia como chegou ali. Tentou lembrar o próprio nome. Não sabia.
Amanhecia. O sol entrava pela veneziana. Partículas de pó dançavam através da luz. Tentou levantar os braços. Forçou as pernas. Deu-se conta de que estava amarrado pelos pulsos e tornozelos. Quis falar. A voz não saiu. Aos poucos balbuciou algumas palavras que não entendeu.
Conseguiu, enfim, gritar por socorro, mas ouviu “assassino”. Alguém de branco entrou no quarto e se sobressaltou quando ligou a luz. Não esperava encontrá-lo acordado, talvez. Era uma bonita moça morena, em seus vinte e poucos anos.
- Não grite dessa maneira. Não pode se agitar assim. - Tocou seu rosto, carinhosamente.
- Como ficou calçado? - Meu Deus, o que foi que eu disse? Eu falei “porquê estou amarrado”.
- Não se agite, tente ficar calmo.
- Com terra sou sempre assim só ficou calçado? - Ai, meu pai. “Mas como vou ficar calmo se estou amarrado”. Que pesadelo. Tomara que seja sonho.
- Fique quieto que vou chamar o doutor. Ele já vai chegar.
E agora, meu Jesus. Será que não vou conseguir me comunicar? Pelo menos estou em um hospital. Que pesadelo. Nome, nome, nome… quem sou eu?
A porta voltou a se abrir. Junto da moça entrou um senhor, de seus sessenta anos, vestindo um jaleco com a gola espuída. Na barba branca havia sinais de amarelo, mais de um lado. O homem devia fumar cachimbo, além de ser muito pequeno.
- Muito bem, muito bem, Carlos. Até que enfim. Não sabe a minha felicidade em vê-lo acordado.
- Tem que tu? - Ai, ai, ai. “Quem sou eu?”
- Ora, vejamos. Repete o que tu disse. Bem devagar.
- TEM QUE TU? - Não adianta. Sai tudo trocado.  Foi cada virado. - “Sai tudo trocado”.
“Inferno!” - Coração!
- Calma, calma, Carlos. Isso é afasia. Pensa em uma palavra e sai outra da boca. Fica calmo que nós vamos nos comunicar.
O velho puxou uma cadeira e sentou perto da cabeceira da cama, ao mesmo tempo em que fez sinal à enfermeira que desamarrasse o paciente. Sentiu um alívio ao poder coçar o nariz e limpar o suor do rosto, enquanto o médico enchia o cachimbo com fumo.
- Muito bem, Carlos. Vamos ver o tipo da sua afasia. Se conseguir me entender, será muito mais fácil. Vou pedir que não tente falar. Escrever também não deve ajudar. Simplesmente vais levantar a mão direita quando quiser dizer “sim” e abanar a cabeça para os lados quando quiser dizer não. Entendeu?
O doente levantou a mão direita como um raio, sob os aplausos da bela moça.
- Que maravilha, Carlos. Tua afasia não é tão complexa, já que tens entendimento. Mas vamos seguir em frente. Entende que está em um hospital?
Mais uma vez a mão direita cortou o ar.  Tem que tu? - Esqueci que não posso falar, droga.
- Calma, calma. Isso vai passar. Eu te garanto. Deixa que eu falo por nós dois. O teu nome é Carlos Silveira. Lembra teu nome?
Abanou a cabeça várias vezes para ambos os lados.
- Certo, certo. Não te assusta, se for possível. Isso também é normal. Lembra por que veio parar aqui? - Uma nuvem de fumaça envolvia o rosto do médico, calmamente sentado, com a perna cruzada.
Novamente a cabeça abanou.
- Muito bem. Foi uma forte pancada na cabeça. Mas isso não vem ao caso agora. O principal é que acordou e está lúcido. Isso é muito bom. Preciso que me escute com atenção e que confie em mim. Já fizemos raio x da tua cabeça e está tudo bem. Vai precisar tomar alguns remédios e dormir. O sono é essencial nesses casos. A enfermeira vai trazer uma injeção e eu mesmo vou te aplicar, está bem?
- Com vinho se tentar sua te conto! - “Mas tenho que saber mais de mim!” - Corja do borralho! - Viu a bela enfermeira sair do quarto e notou suas pernas perfeitas.
- Carlos, confia em mim. Dorme que as coisas melhoram. Eu sou especialista na minha profissão. Estavas amarrado porque quando acordaste da primeira vez, não conseguias falar e ficaste violento. Tua melhora é nítida. Não te lembras disso também?
Abanou agitadamente a cabeça, enquanto a moça voltava com uma bandeja. Aquele mesmo cheiro conhecido, misturado ao perfume dela.
- Eu te garanto, vais acordar melhor. Confia em mim.
A voz do velho médico tinha algo de familiar, persuasivo e reconfortante. Levantou a mão direita, desacoroçoado. Pior não poderia ficar. Viu a agulha penetrar na veia do braço esquerdo e mergulhou na escuridão.
Acordou com um peso na cabeça e uma vontade pavorosa de urinar. Vinha claridade da janela, iluminando o Cristo na parede à frente. Era dia. Balbuciou algumas palavras. Um gosto ruim na boca. Entrou no quarto uma enfermeira. Era uma mulher gorda e baixa, de seus quarenta anos, com uma cara rechonchuda de alemoa de colônia.
- Acordou, já vou chamar o doutor.
Nem esperou que ele falasse e com uma rabanada saiu do quarto. Não demorou muito tempo e o médico entrou.
- Muito bem, Carlos. Acordado. Vamos ver como estamos.
- Muita vontade de urinar, doutor.
- Olha que maravilha. Passou a afasia. Enfermeira, traga o papagaio pra ele.
Após se aliviar, conseguia até mesmo pensar melhor.
- Lembra que ontem conversamos?
- Sim, doutor. Lembro que pensava uma coisa e tentava falar e saía outra coisa. Era desesperador.
- Sim, sim. Afasia. Mas passou. O importante é que estás lúcido. Como é teu nome?
- Carlos Silveira.
- Em que cidade estamos?
- Porto Alegre, não é mesmo?
- Sim, sim. Em que ano estamos?
- Em 1952, é isso?
- Sim, meu amigo. É isso mesmo. Mais alguma coisa?
- Sou médico! Eu sou médico?
- Sim. Fui teu professor e agora somos colegas. Não te lembras de mim?
Um turbilhão de lembranças começou a fluir. Brincadeiras infantis, um cavalinho de pau. Os beijos da mãe. O colégio Marista. A faculdade de medicina, o cheiro de desinfetante – aquele
cheiro. A especialidade em psiquiatria, com o grande professor. Os beijos da enfermeira Lana nos quartos desocupados do hospital antigo, de pé-direito muito alto. O paciente que arrancou o braço
da cadeira. O gosto de sangue na boca e o teto alto, de madeira, em alto-relevo, girando, girando.

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