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As lutas e conquistas da comunidade LGBTQIA+ em Bagé

Em 16/09/2021 às 13:05h

por Redação JM

As lutas e conquistas da comunidade LGBTQIA+ em Bagé | Urcamp | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Interior do ambulatório onde é feito o atendimento clínico para pessoas trans | Foto: Sharon Maia

Por Sharon Maia

Acadêmica de Jornalismo da Urcamp

 

A comunidade LGBTQIA+ carrega uma sigla grande e uma quantidade ainda maior de significados. A mistura de letras pode embaralhar a visão e travar a fala, mas basta ficar a par dos conceitos para entender que as lutas da comunidade são, sobretudo, as lutas de pessoas comuns que são privadas de seus direitos básicos como seres humanos por terem uma orientação sexual ou identidade de gênero diferente do padrão. No mundo todo, a população LGBTQIA+ vem ganhando mais visibilidade, e em Bagé não é diferente.

Murilo Delgado é coordenador do Grupo Diversidade Sexual e Gênero (DSG) e acredita que houve um crescimento da comunidade no município. “Principalmente em relação a se assumir, a se sentir um pouco mais seguro para assumir a identidade de gênero ou sexualidade, só que de 2018 pra cá a gente percebe que isso começou outra vez a ficar mais retraído”, relata.

Como um homem trans, Murilo está sujeito a muito preconceito e conta que com a internet é mais fácil ter acesso a informações da comunidade, mas também é mais fácil sofrer ataques. “Eles também chegaram lá. Além de desanimador, é assustador, porque a gente vê um amigo, vê um vizinho, um parente, colocando na Internet justamente o que fere a nossa própria existência. Então, além de todos os olhares tortos, piadas, falas que recebemos hoje na rua, tu vê muito que esse tipo de notícia [sobre a comunidade LGBT] gera uma revolta imensa neles'', conta.

Delgado também fala sobre os obstáculos na luta por mais direitos para a população transexual em Bagé. "É tudo muito difícil, algumas pessoas realmente até tentam ajudar, colaborar, mas acaba sempre não dando em nada. Parece que ninguém, nenhum órgão público vê isso como um assunto sério, importante, e que também é sobre a vida das pessoas. São questões básicas que muitas pessoas trans não têm acesso”, explica.

O Grupo DSG foi criado em 2018 buscando ampliar os direitos da população LGBTQIA+ na Rainha da Fronteira. Delgado fez parte da sua criação e afirma que algumas conquistas já foram feitas. “Foi uma ideia da Esther [Medeiros] e conseguimos ir realizando algumas ações através do Grupo. Nosso primeiro evento aconteceu no Teatrinho da Urcamp. A partir disso continuamos realizando as Paradas da Diversidade, ações beneficentes voltadas para a população LGBTQIA+”, afirma Delgado.

Este ano, o DSG uniu forças com a Aliança Nacional LGBTI+ que ganhou representação municipal na cidade, sob a coordenação de Esther Medeiros e contando também com a participação de Pietra Simon, como 1° Adjunta, e Murilo Delgado, como 2° Adjunto. Em entrevista, Esther contou que a motivação da Aliança é trazer recursos para a população LGBT de Bagé e fortalecer o Grupo DSG, uma vez que a sua atuação é limitada por não possuir um CNPJ. Segundo ela, representação, visibilidade e união são muito importantes para as causas da comunidade “Pessoas unidas para poder articular coisas a favor da população LGBTI”, frisa Medeiros.

As organizações contam ainda com a parceria da Coordenadoria de Políticas Públicas para as Mulheres, Diversidade e Idoso. Cândida Navarro, coordenadora do órgão, diz ser uma aliada da causa e afirma que se aproximou da comunidade através de sua parceria com Esther Medeiros que, de acordo com Cândida, foi a responsável por fazer as provocações que a levaram em busca de mais informação e capacitação para atender a população LGBT. As duas se conheceram quando Esther estava em busca de estágio na Coordenadoria, segundo Navarro esse foi o momento em que ela percebeu algumas das principais demandas da comunidade, começando pela dificuldade de conseguir emprego.

Falando sobre empregabilidade, Esther ressaltou que um de seus medos durante a decisão de se assumir como uma pessoa trans era a dificuldade de conseguir um trabalho, pois a maioria da população é condenada a sobreviver da prostituição. “Considero importante que existam projetos de lei que garantam o acesso a empregabilidade da população LGBTI, principalmente a população travesti porque são populações que muitas vezes são excluídas do mercado de trabalho”, diz. Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) mostram que 90% da população transexual têm a prostituição como fonte de renda e única possibilidade de subsistência.

Juntas, Cândida e Esther, participam ativamente da luta para garantir os direitos básicos das pessoas que fazem parte da comunidade, ambas contaram que estão sempre tentando dialogar com outras ONGs e Coordenadorias do Estado para conseguir trazer mais recursos para Bagé. Até agora algumas conquistas foram feitas, como a criação de um ambulatório para atender a pessoas trans e a distribuição de cestas básicas para a população LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade social. Mas a tarefa não é nada fácil. Segundo Esther, as cestas só são recebidas após muita insistência. Elas são fornecidas pelo governo do Estado a pedido do Grupo DSG e entregues para os assistidos em suas casas. Atualmente, 112 pessoas são contempladas pelas cestas básicas.

Cândida contou que quando foi fazer o cadastramento das pessoas LGBTI+ em situação de vulnerabilidade encontrou pessoas envelhecidas, pessoas que perderam até a sua saúde, passaram a sua juventude toda buscando a sua identidade real sem conseguir, sem ter apoio. “Hoje, envelhecidas, sofrem com vários tipos de doença em consequência de fazerem automedicação”, relata ela. O pleno funcionamento do ambulatório é indispensável para melhorar a qualidade de vida da população transexual. A coordenadora ressaltou ainda que o mais relevante é a criação de um espaço físico em que a comunidade LGBTQIA+ seja protegida: “Onde tem uma equipe com advogado, psicólogo e assistente social para dar encaminhamento às questões de cidadania dessa população”.

Medeiros lembrou que um dos obstáculos dos movimentos a favor da comunidade em Bagé é a falta de união. Murilo Delgado concorda: “Penso que se houvesse realmente, nós já teríamos avançado em algumas coisas, em vários projetos que são protocolados e esquecidos. Tem pessoas realmente sofrendo com isso”.

Esther Medeiros afirmou que a visibilidade é importante, mas precisa ser efetiva. “As coisas estão se desmistificando, a questão LGBTfóbica não vai acabar em um dia”, acredita. Esther viveu o processo de se entender e aceitar como uma pessoa trans recentemente e contou que sempre faz questão de deixar uma mensagem sobre respeito e aceitação em seus atos. Para ela, a aceitação “tem que ser a gente consigo mesmo” e o respeito é um direito de todos.

O ambulatório e os desafios

O Programa de Identidade de Gênero (PROTIG) atua no Hospital de Clínicas de Porto Alegre fornecendo atendimento clínico completo e gratuito para transexuais. Segundo Murilo Delgado, receber tratamento pelo PROTIG é um sonho, mas a fila demora entre três ou quatro anos e para participar é preciso que haja um encaminhamento de Bagé, o que não acontece. Para tentar facilitar esse processo, foi criado um ambulatório, em outubro de 2020, com o objetivo de diminuir o tempo na fila e assistir as pessoas aqui no município durante a espera. O ambulatório funciona nas segundas-feiras, das 8h às 12h, e está localizado na Rua Marcílio Dias, 800, junto ao Centro do Idoso. Para receber atendimento é necessário agendar horário pelos números (53) 3247-5741 ou (53) 9 9966-3829.

Sobre a atuação do ambulatório, Cândida Navarro afirma: "Nosso trabalho psicossocial e jurídico é de assistir aqui, para quando chegar o momento, a etapa esteja superada. Temos agendadas reuniões e encontros para tratar um protocolo que facilite o processo e atenda sem repetição e tempo perdido”

Para manter plena atuação, o recurso precisa contar com um médico especialista em tratamento hormonal, no entanto, a médica responsável até então se mudou para Porto Alegre e, com a chegada da pandemia, nenhum outro profissional conseguiu realizar a especialização, que acontece em Rio Grande e não pode ser feita de forma remota. De acordo com Navarro, a previsão é que a capacitação do novo médico aconteça ainda em setembro. Enquanto isso, o atendimento psicossocial e jurídico segue funcionando.

Delgado chama a atenção para a importância de manter uma equipe bem preparada para atender a população trans. Vale lembrar que o preconceito é muito forte e o atendimento precisa ser acolhedor para os assistidos. “Não são todas as pessoas trans que vão lá, que se sentem à vontade”, fala ele. Delgado lembra ainda que muitas pessoas acabam fazendo o tratamento hormonal por conta, o que pode causar diversos problemas de saúde a longo prazo. “No começo a gente sempre tenta esperar a forma certa, mas com o tempo fica difícil. Pode desenvolver muitas coisas desde físico até mental”, detalha.

Uma das principais preocupações reforçadas por Cândida e Esther é a necessidade de regulamentar leis que se tornem políticas públicas de Estado, pois assim, esse direito seria garantido pela Constituição Brasileira e se manteria ativo independente de mudanças de governo. 

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