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Esportes

Entre turbulência interna e saídas, Guarany se reorganiza após eliminação na Série D

Em 09/06/2026 às 08:00h
Yuri Cougo Dias

por Yuri Cougo Dias

Entre turbulência interna e saídas, Guarany se reorganiza após eliminação na Série D | Esportes | Jornal Minuano | O jornal que Bagé gosta de ler
Alvirrubro foi derrotado para o Cianorte na última rodadaFoto: Káren Rodrigues/Acesso Imagens

A derrota por 1 a 0 para o Cianorte, na tarde de domingo, 7, no Estádio Estrela D'Alva, encerrou a participação do Guarany no Campeonato Brasileiro Série D e marcou o início de um processo de reformulação dentro do clube. A eliminação veio acompanhada de um cenário de forte desgaste esportivo, dificuldades financeiras, mudanças no elenco e até mesmo um episódio de indisciplina envolvendo profissionais da equipe. Ao final da partida, as manifestações do técnico Alessandro Telles e do presidente Tato Moreira revelaram um clube que busca compreender os motivos de uma temporada muito abaixo das expectativas criadas após os bons resultados alcançados nos últimos anos.

A queda precoce na Série D contrasta com o desempenho recente do alvirrubro, que disputou a Copa do Brasil, alcançou campanhas competitivas em nível estadual e chegou à última rodada com chances de classificação na competição nacional em 2025. Desta vez, porém, o roteiro foi diferente. "Quando se ganha, o treinador também faz parte. Quando se perde, o treinador também faz parte. Não fujo da minha responsabilidade. A responsabilidade é de todos nós. Cada um tem a sua parcela de culpa e precisa entender onde errou e como errou", afirmou Alessandro Telles.

O treinador destacou que encontrou uma equipe já formada quando assumiu o comando técnico, mas reconheceu que isso não diminui sua responsabilidade no resultado final. "Tem culpa total. O treinador sempre tem. Nem sempre se acerta. O futebol é assim. Erros acontecem. O que não pode é repeti-los", acrescentou.

Confusão com Matheus Guimarães

O episódio mais marcante da partida ocorreu aos 36 minutos do primeiro tempo. Ao ser substituído, juntamente de Pedro Henrique, o centroavante Matheus Guimarães se revoltou com a decisão da comissão técnica e tentou agredir Alessandro Telles na área técnica.

Questionado sobre o incidente, o treinador preferiu não alimentar a polêmica. "Essa pergunta talvez tenha que ser feita para ele. Qual jogador acha que não pode ser substituído? Eu entendi que ele não estava conseguindo sustentar em campo aquilo que vinha apresentando nos treinamentos. O Pedro também saiu, entraram outros jogadores e a equipe cresceu dentro do jogo”, ressaltou. Telles avaliou que a equipe apresentou melhora após as alterações, especialmente na segunda etapa. "Conseguimos fazer um segundo tempo razoável, empurrando eles para trás. Nossa equipe não melhorou tecnicamente, mas guerreou mais do que vinha guerreando", completou.

O episódio acabou tendo desdobramento imediato. Na segunda-feira, 8, o Departamento de Futebol confirmou as saídas de Matheus Guimarães e Pedro Henrique. Segundo o clube, os contratos dos atletas se encerraram com o término da participação do Guarany na Série D. A diretoria também informou que novas saídas deverão ser confirmadas.

Falta de competitividade

Ao analisar a campanha, Telles reconheceu críticas recorrentes feitas por torcedores e imprensa em relação à postura da equipe dentro de campo. "Nós já falamos várias vezes que a nossa postura precisava mudar, que a nossa forma de guerrear precisava mudar também. É muito fácil analisar um jogo depois que ele termina. Mais difícil é construir as soluções durante a competição. Nós sabemos onde erramos e sabemos o que precisa melhorar. O clima difícil não começou agora. Ele já existe há algum tempo. Tivemos alguns resultados que deram um refresco, mas sabemos da realidade. Agora temos a Copa FGF e um clássico pela frente. É uma guerra e teremos que ganhar guerreando”, disparou.

Jovens da base

Em meio ao cenário de crise e frustração, a partida contra o Cianorte também reservou um momento positivo para o clube. O atacante Lukãa realizou sua estreia profissional com a camisa do Guarany. A utilização do jovem ocorreu em um momento de pressão reduzida na competição e foi vista internamente como mais uma etapa do processo de formação de atletas. "Os meninos estão treinando, crescendo fisicamente e amadurecendo. Não podemos colocar uma responsabilidade enorme sobre atletas que ainda estão iniciando sua trajetória profissional. O processo precisa ser feito de forma gradual", opina.

Saída de Jonathan

A segunda-feira também marcou o fim da passagem de um dos atletas mais identificados com a torcida alvirrubra nos últimos dois anos. O goleiro Jonathan Queiroz acertou sua saída em comum acordo com a diretoria após receber proposta de uma equipe classificada para a fase de mata-mata da Série D. A despedida encerra uma trajetória iniciada em 2025 e marcada por atuações decisivas. Durante o período, o goleiro disputou duas edições do Campeonato Gaúcho, uma Copa do Brasil e dois Campeonatos Brasileiros Série D. Seu principal momento ocorreu no Gauchão de 2025, quando foi eleito o melhor goleiro da competição pelo Sofascore, consolidando-se como uma das principais lideranças do elenco.

Erros de planejamento

Se Alessandro Telles assumiu sua parcela de responsabilidade dentro de campo, o presidente Tato Moreira fez uma análise igualmente contundente sobre a condução do futebol ao longo da temporada. "O campeonato terminou para nós e agora precisamos fazer uma análise profunda quando encerrarmos todas as atividades. É um ano para não esquecer. Fomos competentes para escapar do rebaixamento no Campeonato Gaúcho, mas fomos incompetentes no entendimento da Série D."

Segundo ele, o problema não esteve na intenção do planejamento, mas no resultado obtido. "Quem montou os grupos de 2023, 2024 e 2025 foi o mesmo grupo que montou o elenco de 2026. Ninguém monta um time para perder. Nós montamos uma equipe para competir, para ganhar, mas simplesmente não engrenou”, salientou. Tato também apontou as sucessivas trocas de treinador como um dos fatores que mais o incomodaram ao longo da temporada. "A mudança de treinador é uma coisa que me incomoda muito. Tivemos três trocas. Isso não é normal dentro daquilo que construímos nos últimos anos", destaca.

Atraso de salário

Ao longo da entrevista, o presidente revelou um cenário financeiro delicado vivido pelo Guarany nos últimos meses. Segundo ele, os atletas ainda não receberam os salários referentes ao mês de maio. "Os jogadores tiveram muita humildade. Eles ainda não receberam o mês de maio. Isso precisa ser dito. Tivemos uma queda muito grande no investimento e isso impacta diretamente o dia a dia", salienta.

O dirigente informou que o orçamento destinado ao futebol sofreu redução de aproximadamente 50% em comparação a temporadas anteriores. "Nosso investimento em 2026 caiu pela metade. Tivemos patrocinadores que colocaram R$ 150 mil em anos anteriores e este ano investiram R$ 50 mil. Quando o time não performa, desaparece o investidor, desaparece o patrocinador, desaparece o sócio e desaparece o torcedor", dispara

Apesar das dificuldades, Tato fez questão de elogiar o comprometimento do elenco. "Quero agradecer a esse grupo de jogadores porque nada mudou dentro do vestiário. Eles continuaram trabalhando, continuaram se dedicando e entenderam as dificuldades que o clube está enfrentando."

Baixa arrecadação na Série D

Outro tema abordado pelo presidente foi o impacto financeiro da disputa nacional. Tato revelou que somente a arbitragem da partida contra o Cianorte custou R$ 20.580 ao clube. "Hoje foi o ápice da questão financeira. A arbitragem e o staff custaram mais de R$ 20 mil. E nós não chegamos a R$ 500 de arrecadação de bilheteria. A Série D é uma competição extremamente deficitária. É uma competição que precisa ser estudada profundamente. Temos que entender qual é o investimento possível e qual é o propósito do clube dentro dela”, analisou Tato, que também comparou a realidade financeira do Guarany à de clubes catarinenses que disputam o mesmo nível nacional. "Os investimentos dos clubes do interior de Santa Catarina são muito superiores aos nossos. São cidades com clube único e com outra realidade econômica", frisou.

Ba-Gua no domingo

Com o encerramento da trajetória na Série D, o foco do Guarany passa a ser integralmente a Copa FGF. O clássico Ba-Gua 434, inicialmente marcado para quarta-feira, 10, às 20h, foi transferido para domingo, 14, às 16h, no Estádio Pedra Moura.

A mudança ocorreu após solicitação do Bagé, atendida pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF), em razão do encerramento das participações de Guarany e Brasil de Pelotas no Campeonato Brasileiro Série D.

Entre erros assumidos, dificuldades financeiras expostas e um ambiente que precisará ser reconstruído, o Guarany encerra sua passagem pela Série D deixando uma certeza internamente: a temporada de 2026 servirá como um duro aprendizado para um clube que, após anos de crescimento, volta a conviver com a necessidade de recomeçar.

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