Arte e Cultura

terça-feira, 3 de dezembro de 2013 às 21:37

Uma notícia que é música para os ouvidos

Em vigor desde 2008, a lei 11.769, que diz que a música deverá ser conteúdo obrigatório do componente curricular das escolas públicas e privadas, carecia de diretrizes que determinassem sua prática. Agora, uma resolução federal, organizada pelo Conselho Nacional da Educação (CNE), está em Brasília prestes e ser aprovada hoje, quarta-feira (4). Gestores públicos e secretários de educação devem imediatamente se organizar para colocar em prática essa medida que só tem benefícios a oferecer à comunidade escolar.

Para Jusamara a música dever ser vista como uma disciplina fundamental, consolidada, e não somente como subsidiária de outras áreas - Créditos: Francisco de Assis
Para Jusamara a música dever ser vista como uma disciplina fundamental, consolidada, e não somente como subsidiária de outras áreasFrancisco de Assis
Contato de crianças com a música forma um público mais crítico, melhora os ouvintes e promove a alfabetização musical - Créditos: Francisco de AssisProfessora Adriana disse que Seminário reuniu autoridades para debater a obrigatoriedade da música no currículo escolar - Créditos: Francisco de AssisPara Malvina todas as áreas de conhecimento devem ser tratadas com igualdade.  Inclusive a música - Créditos: Francisco de Assis

Música obrigatória nas escolas

Se Platão em 300 a.C. já dizia que "a música é um instrumento educacional mais potente do que qualquer outro", e Nietzsche, há mais de um século, tão bem resumia que "sem música, a vida seria um erro", por que os atores políticos são tão resistentes e, em pleno século 21, ainda não instituíram o ensino dessa arte tão importante nos cadernos de nossos alunos?

Esperamos que a resposta à pergunta acima não necessite mais ser respondida. Pois a partir desta quarta-feira a música passa a ser obrigatória nos currículos escolares de escolas públicas e privadas de todo o Brasil. Sancionada em 18 de agosto de 2008, a lei número 11.769, que rege sobre a obrigatoriedade da música na educação básica (ensino infantil, fundamental e médio) nunca foi posta em prática por que muitos gestores da educação não tinham total discernimento da aplicabilidade da norma legal. A dúvida imperava nos agentes públicos e somente casos isolados de ações voltadas à música ocorriam no território brasileiro.

Para terminar de uma vez por todas com a pulga que insiste em incomodar a orelha da educação tupiniquim acerca de como devemos inserir o samba, o forró, a milonga e o vaneirão em sala de aula, é que uma resolução, que será aprovada hoje, irá determinar as diretrizes e orientar professores e gestores públicos sobre como colocar em prática o ensino da música.

 

O tema em debate 

Tema central do 4º Seminário Estadual Música na Escola, ocorrido na última segunda-feira, no complexo cultural do Museu Dom Diogo de Souza, a implementação da música na grade curricular permeou o debate de autoridades na área durante todo o dia. O evento visou mobilizar a sociedade para a efetiva implantação da lei 11.769, discutiu políticas públicas para a área e analisou a situação atual da música nas escolas gaúchas.

O seminário foi promovido pelo Grupo Técnico Música na Escola, coordenado pela Associação Brasileira de Educação Musical (Abem), em parceria com a Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Universidade Federal do Pampa (Unipampa).    

Doutora em Educação Musical pela Universidade de Bremen, na Alemanha, e professora adjunta do Departamento de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Jusamara Souza, afirmou que a música deve ser vista como uma disciplina fundamental, consolidada, e não somente como subsidiária de outras áreas, como vemos atualmente. Nos dias de hoje as canções são utilizadas para facilitar o aprendizado em física, matemática e português, mas não para aprender música em sua essência. "A música deve ser ensinada pelo prazer de fazer música, para desenvolver habilidades, possibilitar o profissionalismo", adiantou.    

Consenso na comunidade científica de que a música ajuda na psicomotricidade, estimula áreas do cérebro, auxilia no desenvolvimento do raciocínio e facilita a concentração, os professores engajados em por em prática a letra da lei 11.769 não desconsideram esses benefícios, porém querem que os alunos aprendam música por prazer. "Eu acredito que em cinco anos nós tenhamos um panorama bem mais favorável. Com mais recursos promovidos pelo Estado e com concursos públicos para professores de música. Sem falar que a lei vai beneficiar a educação e fomentar a economia", concluiu Jusamara, dizendo, ainda, que a música forma um público mais crítico, melhora os ouvintes e promove a alfabetização musical.

A conselheira do CNE, doutora na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e ex-presidente do Instituo Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Malvina Tuttman, iniciou a fala do 4º Seminário propondo uma reflexão. "Discutir a obrigatoriedade da música, para nós educadores, é engraçado. Imagina se estivéssemos falando sobre a obrigatoriedade de matemática, português e ciências nos currículos", iniciou a professora.

Noutro momento afirmou que, quando ocorrem testes de análises amplas sobre disciplinas como matemática e língua portuguesa, por exemplo, e não sobre outras áreas, "nós estamos dizendo que isso é mais importante que aquilo", explicou. "A música, como a dança, o teatro e as artes plásticas não podem ser consideradas atividades complementares, mas atividades inerentes ao projeto político-pedagógico da escola", argumentou a educadora, dizendo, também, que a música deve ser transversal.

 

Projetos que deram certo 

No palco do complexo cultural o Grupo de Percussão da Escola Estadual de Ensino Fundamental Dr. Arnaldo Faria, de Bagé, apresentou um número com batuque em copos plásticos, mostrando destreza e ritmo. O projeto é desenvolvido pela professora Oraides Lenir da Rosa e Silva, professora da rede estadual que propõe uma formação continuada em música. Aderiu ao Programa Mais Educação e, com ele, ampliou a jornada escolar e a organização curricular dos alunos do estabelecimento de ensino em que trabalha.

Há 20 anos trabalhando com educação musical, disse que a iniciação com eles não foi fácil, visto que poucos tinham contato com a música. Mas que aos poucos eles foram se soltando, com o incentivo, com a conversa, e terminaram gostando. Mesmo sem formação em música Oraides desempenha um papel central na formação da criança, lecionando para cerca de 200 alunos de 1ª a 6ª séries. Todos passam por suas aulas.

Acadêmica do curso de Música da Unipampa, Cristiane Irênio, também desenvolveu um projeto pessoal de aproximação com estudantes. Através da disciplina Fundamentos da Educação Musical, levou seu acordeom para dentro da Escola Municipal de Ensino Fundamental Santos Dumont e sagrou-se a professora de música destaque em 2012.

Professora da rede municipal de Bagé Cristiane explorou diversos estilos musicais do cotidiano dos alunos. "A recepção deles foi maravilhosa. Eu levei músicas que eles escutavam na mídia, no mp3, nos fones de ouvido. E foi muito enriquecedor. Muitos já tinham contato, mas não eram estimulados. Então eles passaram a se interessar mais", disse a instrumentista.

Outra experiência musical com estudantes bem sucedida em Bagé é o projeto Construindo e Cantando, de Ieda Fernandes Ferreira. Em atividades desde 1999, a ação ajuda crianças pobres e em situação de vulnerabilidade social. O projeto auxilia 16 jovens com idade entre 10 e 16 anos e que têm dificuldades de aprendizagem no colégio. Com a música eles diversificam o conhecimento e obtêm sucesso no conteúdo.

Pós-graduada em Pedagogia Terapêutica, Ieda realiza de forma voluntária este trabalho didático na Escola Estadual São Judas Tadeu, inserindo canções no cotidiano das crianças e produzindo CDs pedagógicos com músicas compostas por ela mesma. Em 14 anos de projeto foram criados cinco álbuns e um DVD.

 

O papel da universidade 

Com um curso de Licenciatura em Música criado há um ano e meio, a Unipampa cumpre papel determinante a partir da aprovação desta resolução, que determina as diretrizes sobre a obrigatoriedade da música na educação básica. Como formadora de mão de obra e de pesquisadores, a universidade deve pensar um projeto que democratize o acesso à cultura.

Prestes a colocar em prática um importante projeto de extensão que vai levar acadêmicos a estagiarem em diversas instituições públicas, a Unipampa prepara-se para a primeira interação social desde a criação da sua graduação em música. "Esse projeto reconfigura o cenário musical de Bagé e começa a movimentar a cidade", disse a coordenadora do curso, professora Adriana Bozzeto, afirmando que os alunos irão desenvolver projetos artísticos, produzir arte e criar oficinas.

Para a coordenadora a sociedade nunca esteve em um período tão musical como este, fazendo referência às tecnologias que facilitam o acesso às artes. Reiterou a fala da professora Jusamara, dizendo que a música não tem que estar a serviço de outras disciplinas. "Ela é tão importante quanto qualquer outra área do conhecimento. É uma importante prática social, que resgata a autoestima da criança, constrói a identidade, em função do prazer estético e artístico", definiu, concluindo a fala com a frase mais marcante do evento: "A música é um direito de todos".

Para o professor mestre em percussão Matheus de Carvalho Leite, primeiramente faz-se necessário um mapeamento cultural da cidade, visto que a instalação do curso é recente. Depois se capacitam os alunos e identificam-se as potencialidades do município. "Queremos criar relações com a comunidade, formar um grupo de percussão com ela, com mestres de percussão. Queremos fazer uma sociografia musical", informou o professor, dizendo que é preciso, também, pensar a políticas culturais sendo que é muito cedo para saber qual o estado da arte em Bagé. "Precisamos antes conhecer as experiências que existem aqui", justificou.

Atualmente, a Unipampa conta com duas turmas de 25 alunos. A primeira deve se formar em 2015. O acadêmico Vitor Melo, do 2º semestre, já sabe o que quer: "Pretendo trabalhar na educação básica", disse o instrumentista que estuda violoncelo e contrabaixo. Jéssica Rocha Rodrigues, que estuda flauta, hesitou um pouco, mas também confirmou que quer trabalhar nas escolas. Disse ainda que reconhece os benefícios da música para a saúde das crianças, mas que o motivo principal é outro: "Eu quero ensinar música pela música, como um entretenimento", finalizou a estudante.

O 5º Seminário Estadual Música na Escola será na cidade de Santana do Livramento, quando ocorrerá a primeira edição internacional do evento.        


Por: Felipe Severo

 
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