Arte e Cultura

terça-feira, 26 de novembro de 2013 às 19:23

Jornalismo em debate no teatro

A peça "O drama e a comédia de ser notícia" propõe uma divertida reflexão sobre as situações que permeiam o relacionamento entre fontes e jornalistas

Esber palestrou sobre a forma adequada das empresas entrarem na pauta dos veículos      - Créditos: Antônio Rocha
Esber palestrou sobre a forma adequada das empresas entrarem na pauta dos veículos Antônio Rocha
Peça teatral levou ao palco as relações cotidianas entre empresas privadas, repórteres e assessores de imprensa - Créditos: Antônio Rocha

Ser jornalista no século 21 está cada vez mais complicado. Num mundo onde todos têm perfil nas redes sociais e exercem o papel de colunista de opinião em postagens de toda ordem, e furam veículos de comunicação com fotos e vídeos de flagrantes antes mesmo de serem publicados no jornal, o papel da imprensa entra em xeque. Neste momento a pergunta que não cala é: será o fim deste profissional?

A temática das redações já foi transportada ao cinema inúmeras vezes, como em "Todos os homens do presidente", "Intrigas de Estado", "A montanha dos sete abutres" e o clássico "Cidadão Kane", entre outros. Na literatura a bibliografia é ainda mais rica. Tanto romances como os conceituados livros-reportagens ou literatura de não-ficção. São exemplos desta classificação obras como "A sangue frio", "O livreiro de Cabul", "Radical Chique", e extensas biografias que nada mais são do que um exaustivo exercício de reportagem, como as de Charles Chaplin, Che Guevara, Friedrich Nietzsche e Carmem Miranda.

A riqueza de títulos nesses dois segmentos artísticos contrastam, entretanto, com a pouca adesão da temática jornalística no teatro brasileiro, por exemplo. Mas a peça "O drama e a comédia de ser notícia" traz para o palco esse tema e suscita a discussão entre o que é e o que não é notícia dentro de uma empresa, e também a relação entre repórter, assessor de imprensa e empresário. O resultado abre um horizonte e esclarece questões a quem ainda considera que, ser anunciante, é o suficiente para ser pauta no dia seguinte.

O autor do roteiro é o jornalista Eugênio Esber, diretor de redação da Revista Amanhã, especializada em gestão e economia. Com 30 anos de experiência na área, Esber percebeu o problema de algumas empresas em lidar com a imprensa. A partir disso desenvolveu um projeto que consta de uma peça de teatro seguida de uma palestra para debater essa relação. "Quando o porta-voz de uma empresa está despreparado, a melhor gestão vai por água abaixo frente à opinião pública", relatou, afirmando que muitos se consideram prontos para lidar com a imprensa quando, na verdade, não estão. A ideia, segundo ele, é quebrar esse paradigma e formar porta-vozes no trabalho com demandas do dia a dia.

Abrindo as cortinas

A peça retrata o editor Carlos Águia (Sidnei Alves Filho), dono do jornal "O Infalível", e a repórter de economia Ágata Cristina (Maira Raiter). Ambos discutem a pauta de uma coletiva de imprensa realizada pela empresa Trama Têxtil, do proprietário Vitório (também interpretado por Sidnei), onde trabalha como assessora de imprensa a jornalista Catarina (também encenado por Maira).

Trama Têxtil quer mais visibilidade positiva nos jornais, visto que saiu recentemente de um escândalo, onde perdeu uma causa trabalhista para um funcionário que a processou por tê-lo forçado a engraxar os sapatos dos colegas a cada mal desempenho de função. O Infalível cobriu a história e, quando foi ouvir a empresa, esta não quis se pronunciar sobre o assunto.  

Incomodado com a repercussão da empresa no diário, Vitório acusa Carlos Águia de silenciar informações "importantes" da Trama Têxtil, como a inauguração de uma nova creche e um novo refeitório para os funcionários. Ao que, prontamente, Águia questiona, dizendo que isso pode ser notícia dentro da empresa, mas que não tem valor algum perante a sociedade, tentando esclarecer ao proprietário alguns critérios de noticiabilidade. 

Depois o editor e a assessora Catarina conversam sobre o teor da coletiva, mas a jornalista se nega a adiantar qualquer informação. A missão é dada à repórter Ágata, que também não obtém sucesso, e vai para a entrevista sem qualquer fato novo. No retorno ela volta sem foco na reportagem, com informações esparsas, pouca profundidade nos assuntos e com dificuldade de encontrar uma abertura para matéria.

A coletiva, na verdade, não passou de uma tentativa da Trama Têxtil em divulgar números positivos da indústria no último ano e tentar apagar as marcas negativas do fato anterior. Mas isso se um dos repórteres presentes não perguntasse sobre a ação judicial perdida, o que deixou o dono extremamente irritado, pondo fim à entrevista. "Essa não é a pauta da coletiva e a pergunta não é conveniente", reclamou o Vitório. O repórter imediatamente replicou: "Não existem perguntas embaraçosas, apenas respostas embaraçosas, seu Vitório".  

Desta forma o editor optou por não publicar os assuntos da coletiva, visto que Vitório falava somente sobre o que lhe convinha, quando quisesse e apenas em circunstâncias favoráveis. E isso fez com que o empresário criticasse a atuação da assessora de imprensa Catarina, a culpando por não ser notícia no dia seguinte, quando na verdade, a culpa era somente sua.

Empresa versus assessoria

Outra questão levantada na obra foi a relação da assessoria de imprensa com o empresário. Muitas vezes o jornalista que trabalha nessa área é visto muito mais como um lobista do que propriamente um assessor. O que é um erro. Assessores de imprensa não são mágicos que transformam ações internas em manchetes de capa. É preciso lucidez e total discernimento sobre o papel deste profissional dentro de uma organização e/ou instituição.

Para a jornalista Aline Reinhardt, assessora de imprensa da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), a peça propôs uma reflexão sobre o fazer jornalístico, tanto para quem assessora, quanto para quem é assessorado. "O clichê ainda existe", disse referindo-se à noção equivocada do público de que o assessor não é jornalista. "O assessor tem que se ver como jornalista e se profissionalizar mais. É um desafio, e esse desafio não é tempo perdido", concluiu, dizendo que gostaria de ver mais assessorados presentes para que eles tivessem essa real percepção do papel de um assessor de imprensa.

Debatendo a profissão

Após o encerramento da peça houve um debate sobre o ofício. Esber reiterou que, o veículo que optar por noticiar o que for mais importante, em vez de publicar tudo, se diferenciará dos demais. "Usar o papel para publicar um release é um equívoco", afirmou. "O repórter que fizer oito matérias por dia, por exemplo, jamais será um grande repórter. Ele estará apenas preenchendo espaço. Uma reportagem bem feita, com análise, com o 'algo mais', isso sim fará dele um profissional diferenciado", opinou.    

A acadêmica do curso de Jornalismo da Universidade da Região da Campanha (Urcamp), Andressa Fagundes, quer trabalhar com assessoria de imprensa depois de formada. Disse que eventos que compartilham experiências são sempre bem-vindos. "A gente acaba tendo outras visões do jornalismo. Achei uma grande ideia essa discussão, com temas atuais. E o público acadêmico deveria prestigiar mais", cobrou, visto que era a única estudante presente.

Mesmo com todos os adventos tecnológicos, instantaneidade e imediatismo da informação, a profissão de jornalista ainda faz-se necessária frente à sociedade, pela sua credibilidade, seriedade e responsabilidade com a notícia. A informação divulgada por meio de veículos de comunicação como jornal, rádio, TV ou internet ainda precisam da figura do profissional, qualificado suficientemente para investigar, divulgar, entrevistar e redigir reportagens. E isso se dá com preparo acadêmico, senso crítico apurado e domínio da língua portuguesa. Logo, respondendo à pergunta inicial da matéria, podemos dizer que o papel jornalista não irá acabar. Pois ser jornalista vai muito além do que ter um perfil no Facebook e um smartphone na mão. 


Por: Felipe Severo

 
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