Arte e Cultura

terça-feira, 26 de novembro de 2013 às 19:19

Críticos analisam O Tempo e o Vento

De passagem por Bagé durante a 5ª edição do Festival Internacional de Cinema da Fronteira, jornalistas especializados não foram muito gentis com o longa de Jayme Monjardim

Sabadin:
Sabadin: "As mensagens são muito redundantes. É para quem gosta de TV e não de cinema."Francisco de Assis
Longa que custou R$ 14 milhões não caiu no gosto da crítica, que o qualificou como um Nader:

O filme que mais lotou a única sala de cinema de Bagé não é lá "tudo isso", de acordo com dois críticos paulistas, que estão de passagem por Bagé, durante o Festival de Cinema. O longa, que mobilizou centenas de bajeenses durante as filmagens na cidade cenográfica de Santa Fé, encantou plateias da Metade Sul pelo apelo cultural e por ser baseada em uma das maiores obras literárias brasileiras: a trilogia homônima de Erico Verissimo.

Muitos bajeenses viram-se na grande tela, figurando ao lado de atores como Thiago Lacerda durante as tomadas de guerra e festa, onde se exige maior número de pessoas. Ao todo, 125 atores participaram, sem contar os figurantes. E estar participando de um dos filmes mais caros do país (R$ 14 milhões), além de ser um acontecimento na vida de qualquer um, faz com que as pessoas não emitam juízos desfavoráveis à superprodução. O que é justificável.

Mas para quem olha de longe, não participou das filmagens e tem como profissão escrever críticas de cinema, esse atavismo característico dos gaúchos não introjetou os corações de quem analisa friamente um trabalho. E tem de ser assim. Do contrário tudo seriam flores. E mesmo escrevendo 27 versões diferentes de roteiro, a obra não foi mais que um "novelão", segunda a crítica.

Celso Sabadin é um jornalista paulista formado pela Fundação Cásper Líbero, faculdade pioneira em Comunicação Social no Brasil. Especializou-se em jornalismo cinematográfico em 1979 e foi crítico de cinema em jornais como a Folha da Tarde, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. Apresentou programas sobre a sétima arte na TV Bandeirantes, de São Paulo, e é autor de três livros.

Para ele, o maior pecado de O Tempo e o Vento é um argumento consensual entre os especialistas: "O filme é um produto pensado para a televisão, com estética de televisão. E isso é um problema sério", iniciou Sabadin. "Eu perdi as contas de quantas vezes a Fernanda Montenegro fala, por exemplo, 'A minha avó Ana Terra', o que demonstra que eles fizeram o longa pensando na minissérie, para adequar a sequência", destacou, sem criticar as atuações do elenco.

Na opinião de Sabadin, o filme subestima a capacidade de discernimento do público, pela repetição de falas, como a que mencionou anteriormente. "As mensagens são muito redundantes. É pra quem gosta de TV e não de cinema. É um filme que busca a grande bilheteria. Como crítico eu lamento, mas entendo", disse, fazendo referência a determinados projetos da indústria cinematográfica que buscam o apelo popular, como este da Globo Filmes.

O jornalista considerou, também, a evolução de Monjardim em relação ao seu primeiro trabalho: o longa Olga. Olga foi demonizado pela crítica, ao ponto de dizerem que o filme "tem um ranço de televisão que incomoda os mais sensíveis" e "closes em excesso e diálogos muito pobres", o que só reafirma a sina do diretor de fazer bons trabalhos para a telinha, mas pecar em obras para a telona. Mas Sabadin acredita que será uma boa minissérie, embora tenha criticado os excessos de paisagens e pores do sol.      

O tom novelesco de O Tempo e o Vento está, também, no discurso de Cid Nader, crítico, jornalista e criador do site cinequanon.art.br, um dos principais portais sobre cinema brasileiro. Formado, do mesmo modo, pela Cásper Líbero, Nader elogiou alguns movimentos que vêm qualificando a produção cinematográfica no país, como em Pernambuco e no Ceará. Produções de baixo custo, mas com uma riqueza de histórias, que nos faz questionar por que investir R$ 13 milhões em um trabalho que não "ata a chuteira" da obra de Erico.

Mesmo sem ter assistido ao longa de Monjardim, a convivência com amigos da área e a leitura especializada fizeram com que o depoimento de Nader não fugisse do de Sabadin. "Pelo que li há uma inversão de técnicas. A televisão é levada para o cinema. E isso não é cinema, é televisão", declarou, reforçando a fala do colega de profissão sobre o desdém com o público, em passagens e falas repetidas. "O que tem de melhor é a fotografia, porque Bagé tem uma luz muito parecida com Marte", elogiou.  

O Tempo e o Vento já foi visto por mais de 700 mil pessoas e custou R$ 14 milhões. Quase metade saiu dos cofres públicos mediante incentivos fiscais para produção de filmes, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine). Conforme o site Filme B, que monitora bilheterias nacionais, até o dia 17 de novembro o longa havia arrecadado pouco mais da metade, algo em torno de R$ 7,6 milhões. A minissérie deverá ser exibida em três capítulos, de 1º a 3 de janeiro.


Por: Felipe Severo

 
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