Arte e Cultura

terça-feira, 5 de novembro de 2013 às 19:01

Ladrilhos que inspiram arte

Olhando assim muitos pensarão que a foto é a imagem de um belo ladrilho. E não estariam errados. Porém, não se trata, tecnicamente, de um ladrilho, mas de uma peça em cerâmica inspirada nele. Febre no fim do século 19 e início do 20, decorando interiores de casarões de estilos neoclássicos e ecléticos, caíram em desuso gradativamente com as construções contemporâneas. Esquecidos foram perdendo o merecimento arquitetônico e histórico contido em cada peça. E para resgatar esse valor uma artesã propôs confeccionar obras inspiradas neles. Afinal, mesmo silenciosos, eles são testemunhos de gerações que habitaram prédios antigos. E só com a luz que os artistas possuem de transformar o barro em obras de arte é que ela conseguiu trazer as imagens dos pisos dos casarões para dentro de uma exposição.

Marilu Teixeira expõe seu trabalho até 18 de novembro na Casa de Cultura Pedro Wayne - Créditos: Francisco de Assis
Marilu Teixeira expõe seu trabalho até 18 de novembro na Casa de Cultura Pedro WayneFrancisco de Assis
Antes de ficarem prontas as peças vão para um forno  a uma temperatura de mil graus por quase 24 horas - Créditos: Francisco de AssisCoquetel de abertura contou com a presença de autoridades e personalidades  ligadas à cultura, em Bagé, na última segunda-feira - Créditos: Francisco de AssisProcesso artesanal de confeccção de uma peça em cerâmica pode levar até duas semanas - Créditos: Francisco de Assis

Os ladrilhos hidráulicos, para leigos, não passam de azulejos coloridos enfeitando pisos de casas antigas, contornos de lareiras e paredes de cozinhas. Para os arquitetos, além de uma obra decorativa que confere personalidade e elegância, são um resgate de uma técnica artesanal e de um determinado período histórico.
Tem origem nos antigos mosaicos bizantinos, máxima expressão religiosa e artística destes povos, que adornavam abóbadas e paredes de catedrais e basílicas. A data específica é imprecisa, visto que do século 4 ao 6 ocorreu a transição entre os Impérios Romano e Bizantino. No Brasil as primeiras fábricas surgiram no final do século 19. Num primeiro momento eram dedicadas a revestimentos de paredes e, só depois, aos pisos.
 
Em Bagé eles chegaram com a fundação da Barraca Deiro, em 1924, do empresário Segundo Deiro. A fabricação começou entre 1928 e 1930. Com a entrada de mais um irmão nos negócios a empresa passou a chamar-se S. Deiro e Irmão, registro que veio estampar alguns ladrilhos para demonstrar a origem do produto. Em 1995 a empresa foi vendida, vindo a chamar-se Ladrilhos Terra Inglesa. 
 
Recebeu o nome de ladrilho hidráulico pelo fato de ser apenas molhado, sem processos de queima, ficando até oito horas embaixo d'água curando. Possuem durabilidade estimada em mais de 100 anos. As peças são produzidas, em sua maioria, nas dimensões 20 x 20 centímetros, em diversas combinações de cores devido à sua técnica de produção artesanal, que permite peças personalizadas. 
 
Foi apresentado como alternativa ao mármore ou como uma cerâmica que não necessitava de cozimento. Mas a partir de 1960, com o surgimento de outros materiais, os pisos hidráulicos foram substituídos por elementos menos elaborados e mais rentáveis, caindo em desuso.
E justamente para resgatar um pouco da história que os ladrilhos remontam, testemunhos silenciosos dos casarões de Bagé, é que Maria Luisa Teixeira da Luz, a Marilu, realiza a exposição "Ladrilhos Hidráulicos - Releitura do Patrimônio Histórico de Bagé", na Casa de Cultura Pedro Wayne, até 18 de novembro. "Na verdade são trabalhos de cerâmica inspirados nos ladrilhos hidráulicos", explicou.
 
Para a diretora da Casa de Cultura Pedro Wayne, Anacarla Flores, a proposta de expor cerâmica é para dar mais espaço e visibilidade a diferentes tipos de arte: "Bagé tem uma diversidade cultural muito grande. E queremos dar oportunidade a todas elas: à pintura, ao desenho, à gravura e à cerâmica. E a arte da Marilu tem um objetivo por trás, que é alavancar a questão do patrimônio histórico, ou seja, além de cultural é educativo", comentou a diretora. "Não é só a arte pela arte", concluiu. 
 
A pesquisa em imagens e o processo criativo 
 
Marilu não fabrica ladrilhos. Suas peças em cerâmica são reproduções deles, que ela recolheu em uma pesquisa realizada através de fotografias em três prédios de Bagé: a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, a Capela de Santa Thereza e o Palacete Pedro Osório. "Sempre gostei de fotografar casas antigas, detalhes arquitetônicos, como platibandas, almofadas de portas e colunas", confessou. "Os ladrilhos são inspirações destas construções". Ao reunir material suficiente para a produção, partiu para a complexa confecção das obras feitas de forma totalmente artesanal. "Nós usamos três tipos de argila: a vermelha, que é daqui de Bagé; uma mais escura, de Candiota; e a argila branca, que vem de São Paulo", disse a ceramista.
 
O processo de fabricação de cada peça única leva de 12 a 14 dias. Primeiro se prepara uma armação com sarrafos. Distribui-se a argila dentro desta fôrma e depois se alisa com uma régua até formar uma placa quadrada uniforme. O desenho é feito à mão com um estilete especial - uma espécie de cinzel. Quando se requer alto-relevo, como uma flor, por exemplo, cada figura é feita separadamente e, após, colada na placa com barbotina, que é uma argila mais macia misturada com água e vinagre. Caso o trabalho não tenha sido concluído no mesmo dia, a peça deve ser coberta com um pano úmido a fim de deixar o barro ainda moldável. Se terminado o serviço cobre-se com um plástico até que seque totalmente. Depois uma lixa fina deve ser passada para deixar a peça lisa antes de ir para o forno a quase mil graus centígrados, por aproximadamente 24 horas. Para retirar de lá deve-se desligá-lo e deixar esfriar naturalmente, pois senão a argila pode sofrer rachaduras. Feito isso a peça dever ser lavada. Só então começa a etapa da pintura, feita com óxidos e vibrados (tinta brilhante) misturados em medidas iguais. Tudo pronto? Que nada. Depois de tudo isso a obra retorna ao forno pelo mesmo tempo e temperatura. Só então o trabalho estará finalizado. E lá se foram duas semanas de trabalho.     
 
A inclinação artística de Marilu
 
Ao ser perguntada por que reproduziu ladrilhos em obras de cerâmica, alertou: "Para dar uma sacudida nessas pessoas que acham os ladrilhos feios, que não sabem o valor histórico que eles têm". Marilu mal lembra quando começou a gostar de arte. Sabe apenas que foi na infância. O primeiro contato com a cerâmica foi com Rui Beckman, na década de 1970, num atelier que o artista mantinha a rua José Otávio. Aprendeu muito, também, com sua ex-professora, Consuelo Cuerda. Mas antes disso já havia se formado em declamação pelo Instituto Municipal de Belas Artes - Imba -, em 1958, e, em 1963, começou a dar aula, ficando por 10 anos como professora desta quase extinta atividade, que ensina pessoas a recitar poesias. 
 
Mais tarde lecionou História da Arte, Folclore e Expressão Corporal no extinto curso de Educação Artística, da Universidade da Região da Campanha - Urcamp. Também deu aula para alunos de Arquitetura e trabalhou com xilogravuras. Parou com a cerâmica no fim da década de 1970, dedicando-se inteiramente à expressão dramática, produzindo peças de teatro abertas à comunidade, vindo retomar o contato com argila somente em 2000, após se aposentar pela Urcamp. 
 
Marilu já expôs em diversas cidades, como Porto Alegre, Caxias do Sul, Alegrete e Santana do Livramento. Sempre com o seu grupo de amigas artistas do Atelier Forma e Expressão. Mas essa é a primeira vez em que realiza uma exposição individual. Ela pretende dar continuidade ao seu trabalho retratando ladrilhos. "Já estou fotografando outros prédios, pesquisando", disse.
 
A arquitetura de interiores
 
Para a arquiteta Maria de Lourdes Campos Costa os ladrilhos estão de volta e se tornaram tendência de novo, quase um século depois da chegada ao país. "Eles servem para decorar qualquer ambiente, seja banheiro, escritório, área da churrasqueira", sugeriu. "Eles são um resgate à técnica artesanal, já que não existe fabricação em série". 
Clássico da arquitetura de interiores eles são fabricados artesanalmente em moldes de ferro. São feitos com cimento branco, quartzo, diabásio e pó de pedra. Podem ser coloridos normalmente com até cinco tons. Alguns podem ser confeccionados com desenhos exclusivos, "como marcas de estância, por exemplo", disse Maria de Lourdes. Proprietária da Ladrilhos Terra Inglesa, a empresa tem no currículo o restauro de importantes obras públicas, como o Viaduto da Borges de Medeiros e o Museu de Artes do Rio Grande do Sul - Margs -, em Porto Alegre, e o Mercado Público de Pelotas.                 
 

 


Por: Felipe Severo

 
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