Marcelo Teixeira

sábado, 18 de março de 2017 às 0:00

Richard e Emmeline

Disparado o filme que mais vezes assisti na minha vida foi A Lagoa Azul (The Blue Lagoon, EUA, 1980). Lá nos anos 80 eu era um aficcionado pela película e, se não me engano, só no extinto Cine Avenida, assisti seis vezes. Certa vez levei até um gravador para gravar o áudio do filme para depois ficar ouvindo em casa. Mesmo sendo em inglês, um idioma que conhecia (e ainda conheço) muito pouco, eu praticamente já tinha decorado as falas dos personagens. Coisas da idade e daquele tempo em que o cinema tinha muito mais relevância cultural e influência comportamental.
Depois disso perdi a conta de quantas vezes assisti a reprise na TV e na semana passada não foi diferente. Enquanto escrevia o artigo semanal para o MINUANO, a Globo reprisou pela enésima vez o filme na Sessão da Tarde e, como quase sempre que posso, assisti o filme mais uma vez, só que, desta vez, foi diferente. Percebi algo na trama que nunca tinha percebido antes.
Pude experimentar a sensação, mais uma vez assistindo a um filme, de que Ortega y Gasset estava tapado de razão quando disse "Eu sou eu e minha circunstância", ou seja, o filme era o mesmo, mas quem o assistia não.
Percebi, pela primeira vez depois de décadas, que A Lagoa Azul é praticamente um plágio da passagem de Adão e Eva na Bíblia Sagrada. Tudo começa quando as crianças desembarcam na ilha acompanhadas apenas do velho cozinheiro/marinheiro Button. Antes de sair de cena, o velho de barba branca adverte o casal que eles não devem ir para o outro lado da ilha. Uma advertência similar a que foi feita por Deus a Adão.
Já crescidos, a menina Emmeline descobre o lado proibido da ilha e tenta convencer Richard a ir lá. Ele inicialmente resiste, mas, depois, por causa de uma enfermidade dela, ele enfim conhece o lado proibido da ilha. Após esta passagem, o casal se descobre sexualmente e a história segue até o fim sem guardar muita identidade com a passagem bíblica.
Porém, na maior parte do tempo, a história mostra um jovem casal em um paraíso, a proibição do velho de barba branca, a iniciativa da mulher e a tentação irresistível para o homem. Para mim isso não deixou a menor dúvida de que a inspiração para A Lagoa Azul foi Adão e Eva no Jardim do Éden. A grande questão é: como não vi isso antes? E nunca vi ninguém destacar isso também, mesmo tendo lido muito sobre o filme na década de 80.
É óbvio que isso não muda meu apreço pela obra, nem deslustra o belo trabalho dos produtores e realizadores do filme. Porém deixa claro que uma mesma história pode ser contada várias vezes de diferentes formas sem que e a gente perceba que, em essência, era a mesma história. Assim como em outras artes, na dramaturgia nada se cria, nada se transforma, tudo se copia! Foi só trocar os nomes para Richard e Emmeline que por muitos anos não percebi que ali estavam Adão e Eva.


Por: Marcelo Teixeira

 
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