José T. Giorgis

quarta-feira, 15 de março de 2017 às 0:00

Jesus e Nilceu

A Providência sobressalta com o assombro. E parece brincar com a ironia, pois no minguado espaço de semana levou pessoas com qualidades parecidas, decentes, probos, responsáveis, dedicados às profissões e família; e, desportistas de lados opostos. Jesus e Nilceu.
Jesus Ollé Vives foi o médico que atendeu a saúde de nossas filhas desde o nascimento até alargada adolescência. Madrugou algumas vezes. Depois do Dr. Mário, foi quem sempre as examinou e deu a notícia que gurias eram, quando ecografia não existia. De uma delas salvou de urgente cirurgia quando sua arte, rapidamente, conjeturou procedimento que regulou a ingestão do leite. Febres, temperaturas, caxumbas, tosses, varicelas, tudo sarado por seus receituários escritos de canhota e pelas consultas na sala da rua Salgado Filho, sem contar as demoradas visitas, o estetoscópio sindicante; as apalpações; as gargantas inflamadas; a mitigação dos choros. Recém-formado, como hábito era, teve noviciado em cidade no Vale do Taquari; aqui chegou munido da experiência que o fez mestre da especialidade. Médico de família seguia a anamnese, a conversa investigativa, o aprofundamento do exame. Não há erro: foi sacerdote de seu ofício.
Tivemos sólida e respeitosa amizade, seja pela vizinhança ocasional com seu Jacinto e dona Cármen, os espanhóis da rua João Telles, onde também estava a tamancaria do genro Miguel Físsel, marido da Carminha, pais da Teresinha e Diana, esta desde sempre uma das melhores amigas da Neusa; seja pela íntima convivência de Jesus e Leda com a família de minha sogra Sarita, lindeiros de muito; seja pelas posições partidárias em que houve coincidência; ou a divergência nas escolhas futebolísticas, embora ele comprasse meus sorteios alvirrubros; e eu os que ajudavam a turma do Pedra Moura.
Lá em Santa Catarina ele foi buscar Leda, a bela morena da estirpe do ex-presidente Nereu Ramos, tradicional família de políticos daquele estado, e desse longo e feliz matrimônio nasceram os filhos Ângela e Cláudio, também médicos e obedientes aos mesmos dogmas paternos, e Marcos, advogado competente. Leda dedicou-se ao magistério singular, de onde remanescem efeitos de sua cultura, seja na cátedra, pesquisa literária ou em inspirados poemas, tornando-se personagem local pelo talento e presença comunitária.
Edgar Muza foi muito feliz em desvelar o "Jesus jalde-negro", o aficionado sempre otimista que, a cada partida, via nos seus jogadores projetos de futuros atletas para o Camp Nou ou do Maracanã; que com outros abnegados e modéstia, não se furtava a "difícil habilidade de pedir", na esperança de que o futebol reencarnasse os heróis dos campeonatos estaduais, as velhas pelejas com bola de tento, barro e fogo. Finalmente, de anotar-se a coerência política do Jesus, que não renegava as convicções mesmo nos momentos de pressão e força, mantida intocada, por sua dignidade e postura, com a robustez ideológica do sangue catalão que inundou sua alma.
Quando ginasiano, já perto do meio-dia, descia a avenida Sete de Setembro para encontrar o pai na Livraria Predileta. Ele havia sido balconista quando a loja era de Catão Perez, seu cunhado. Ali a empresa já era de Elpídio Ruiz, pai do Gelsir, meu colega. Na entrada, numa roda de cadeiras de vime, sentavam os intelectuais da época, como Pedro Wayne, Otávio dos Santos, Júlio Duarte Vaz, Walter Conceição, Theo Lahorgue, Vilmar Monteiro e seu Bernardino. Angelino Previtali, gerente, e uns jovens atendentes como o Anjinho e o Nilceu Conde.
Depois seu Angelino e Nilceu criaram a Livraria Previtali defronte ao IMBA e todos se recordam do início das aulas: compra de cadernos, lápis colorido, transferidor, régua, borracha, apontador e os exemplares recomendados pelos colégios. Quantos não se lembram da época, tudo cheirando a novo, a se acomodar nas pastas, pois não havia a moda das mochilas; quantos não lembram a gentileza dos donos, a tranquilidade do seu Angelino e a agitação constante do Nilceu; quantos não construíram suas carreiras adquirindo os produtos e pendurando o débito; tantos forjaram saber à custa da indicação de um ou outro autor e a encomenda especial de certo romance; confesso que devo à Livraria Previtali muitas obras que dormitam na minha biblioteca; contrito, também revelo que minha conta aguardava, com paciência, que os vencimentos do magistério chegassem. Como presença assídua, tentei policiar a senha do Nilceu para escrever o preço dos livros, e a palavra mágica de onde saiam letras para a combinação (juro que era "repúblicas", expressão com dez sinais correspondentes a dez números). Outro fato: nos sábados a gente ficava no recuo das vitrines, mateando e vendo a vida passar, sob a complacência dos donos.
Depois Nilceu assumiu tudo, agora com a dona Tereza, sua cúmplice nos afetos e negócios; e ajuda das quatro estrelas meninas, Miriam, Magali, Magda e Marli, que foram orgulho e alegria dos pais e dos amigos, deslocando-se mais tarde para o Centro Histórico, perto da residência que sempre fora agasalho e ninho. Assim como o Jesus, seu Angelino era jalde-negro, mas o convívio com o alvirrubro Nilceu sempre foi amistoso, fraterno e pacífico. Nunca os vi discutir sobre resultados de futebol, talvez na intimidade, alguma brincadeira quando se encontravam na segunda-feira.
As homenagens que Nilceu recebeu do Guarany, soube-o, condizem palidamente com sua dedicação frenética ao clube e empenho em todas as iniciativas. Como dirigente no passado, acrescento e testemunho ao vigor que dedicava à causa Índio, sempre pronto e aceso para os bons e maus momentos, solidário e prestimoso. Sua honorabilidade e correção de conduta eram apanágios que o convocavam em primeiro lugar. Não houve gestão que abdicasse de lembrá-lo. Era um dos primeiros da lista de convidados quando se estruturavam as campanhas. E confiança dos administradores na guarda das contas e recursos. A peça dos fundos da livraria muito serviu para confabulações e planejamentos. E, sobretudo, Nilceu era um torcedor vibrante e assíduo.
Que coisa. Vou morrer sem entender os desígnios dos céus.


Por: José Carlos Teixeira Giorgis

 
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