Saúde

segunda-feira, 13 de março de 2017 às 0:00

Nova epidemia de sífilis coloca em alerta o Ministério da Saúde

Na última sexta, o Senado aprovou o Dia Nacional de Combate à Sífilis. O momento é oportuno para falar da doença, a mais antiga entre as DSTs, que pôs fogo na Europa no século 15, já que o Brasil vem registrando índices crescentes da doença, principalmente entre gestantes

Nova epidemia de sífilis coloca em alerta o Ministério da Saúde - Créditos: Arquivo pessoal
Nova epidemia de sífilis coloca em alerta o Ministério da SaúdeArquivo pessoal
Teste rápido detecta doença - Créditos: Arquivo pessoalEliziane atribui aumento de casos a falta de proteção durante o sexo - Créditos: Arquivo pessoal

Nova epidemia de sífilis coloca em alerta o Ministério da Saúde

Na última sexta, o Senado aprovou o Dia Nacional de Combate à Sífilis. O momento é oportuno para falar da doença, a mais antiga entre as DSTs, que pôs fogo na Europa no século 15, já que o Brasil vem registrando índices crescentes da doença, principalmente entre gestantes.

Sífilis volta à cena
Doença dos poetas, praga francesa e flores púrpuras. Muitas eram as designações para a sífilis durante a epidemia que se alastrou pela Europa no século 15 e que teve reflexos tão poderosos que ainda hoje são sentidos, como as maquiagens espessas, que surgiram para ajudar a camuflar os sinais da doença na pele. Os reflexos foram ainda piores porque na época, a penicilina, o antibiótico usado para exterminar a bactéria, só foi descoberto em 1928.
Mais de 500 anos após os primeiros registros, essa Doença Sexualmente Transmissível (DST) segue fazendo vítimas em todo o mundo, principalmente porque é silenciosa e se manifesta com força muito tempo após o contágio.
Recentemente, o Ministério da Saúde divulgou dados mostrando que o número de pessoas infectadas no País aumentou 32,7% entre 2014 e 2015.  A sífilis congênita persiste no Brasil, com uma taxa de 4,7 casos por mil nascidos vivos. Já no caso da doença em gestantes, a taxa chega a 7,4 casos para cada mil nascidos vivos.
Em Bagé, os índices também podem ser considerados altos. Em fevereiro, foram realizados 135 testes rápidos no Serviço de Atenção Integral à Sexualidade (Sais), em que 24 foram reagentes. Em seis meses, dos 541 testes, 56 foram reagentes para sífilis.
Coordenadora do Sais, Eliziane Folleto explica que o aumento de novos casos é atribuído, em parte, às práticas sexuais inseguras e ao aumento do número de parceiros sexuais. Ela relata que em relação aos números registrados, pode ser considerado um surto em nível municipal. "Deve-se atentar para a incidência nacional, onde já se caracterizada como epidemia, por incidir em todo território nacional", afirma.
A epidemia é uma regressão, já que com a descoberta da Aids, na década de 1980, a sífilis saiu de cena. Com o temor ocasionado pela descoberta da nova doença, as pessoas passaram a se proteger durante as relações sexuais, o que acarretou uma queda em todos os registros de DSTs. Na época, os registros eram tão baixos que não era necessário o registro no Ministério da Saúde quando um caso era encontrado.
Mais recentemente, com o desenvolvimento de tecnologias e medicamentos que tiraram da Aids o rótulo de "doença mortal", a população novamente relaxou, passando a utilizar menos proteção. E, assim, novamente a sífilis voltou à cena e a notificação dos casos da doença ao Ministério da Saúde voltou a ser obrigatória em 2010.

O que é e como se apresenta a sífilis?
A sífilis é causada pela bactéria Treponema pallidum, cujo sintoma mais comum é uma úlcera indolor na região genital. A sífilis, se não tratada a tempo, pode espalhar-se pelo corpo e causar graves lesões de órgãos internos, como o coração e o cérebro.
"Os sinais e sintomas da sífilis variam dependendo da fase em que se apresente (primária, secundária, latente e terciária). A infecção pode apresentar vários sinais e sintomas, tais como lesões cutâneas, ósseas, cardiovasculares e neurológicas, podendo levar à morte", explica Eliziane.
A doença se desenvolve em três estágios, geralmente consecutivos. O primeiro deles, a sífilis primária, ocorre de três a 90 dias após o contágio. Neste período surgem lesões como pequenas feridas, inicialmente de cor rósea, que evoluem para um vermelho intenso com fundo esbranquiçado. Esta lesão se chama "cancro duro", geralmente é única e não dói. Nos homens, esta lesão surge geralmente no pênis, muitas vezes na região próxima ao canal da uretra. Nas mulheres, pode aparecer nos grandes lábios, na parede vaginal ou no colo do útero. Como não dói muitas mulheres não a percebem.
O contato geralmente acontece pela relação sexual; por isso pode também haver lesões isoladas na boca, língua, mucosa anal ou na região mamária. Geralmente aparecem gânglios aumentados perto do local da lesão, o que pode ser uma dica de que algo não está bem.
Importante saber que a lesão, o cancro duro, desaparece espontaneamente, independentemente de tratamento, sem deixar cicatriz, em mais ou menos quatro ou cinco semanas.
A sífilis secundária, depois de um período de latência, sem sintomas, que pode variar de seis a oito semanas, entra de novo em atividade. Isso significa que a bactéria causadora  atingiu internamente outros órgãos e sistemas. A pele é intensamente atingida. Surgem lesões rosadas, em formas de pápulas, que podem atingir toda a superfície do corpo.
A palma das mãos e planta dos pés são caracteristicamente acometidas. Algumas destas lesões, dependendo das condições, podem conter a bactéria e ser contagiosas em circunstâncias especiais. A fase secundária pode evoluir com surtos de atividade e períodos de latência, sem sintomas. Algumas pessoas conseguem se curar no período de latência, mas outras evoluem para a fase seguinte e mais grave de todas.
No último estágio, sífilis terciária, órgãos e sistemas são acometidos como o sistema nervoso central, sistema cardiovascular, pele, músculos, ossos ou fígado, por exemplo. Os sintomas são graves e vão depender da região atingida. Importante saber que todo este caminho de progressão da sífilis pode durar muitos anos  para se completar.

Sífilis congênita
Eliziane relata que a gestante, por via hematogênica (pelo sangue), transmite para o feto a bactéria em qualquer fase da gravidez e em qualquer estágio da doença, resultando em sífilis congênita, podendo levar a um aborto, natimorto ou óbito neonatal. "A doença também pode causar o nascimento prematuro de bebês com baixo peso, com outros sintomas como coriza mista com sangue, sinais e sintomas ósseos, inchaço do fígado e do baço, pneumonia, surdez, cegueira, entre outros males, que podem resultar na morte da criança", diz.

Tratamento
Eliziane explica que a penicilina G é a droga preferencial para o tratamento da sífilis em todos os estágios da doença. O tipo do antibiótico (benzatina ou cristalina), a via (se por soro ou injeção) e a dosagem dependem das manifestações clínicas e da presença ou não de co-infecção pelo HIV, vírus da Aids. "A efetividade da penicilina no tratamento da sífilis está muito bem estabelecida e baseada na experiência clínica de muitas décadas, em estudos observacionais e em ensaios clínicos", conta.


Por: Jornal Minuano

 
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