Padre Airton Gusmão

sábado, 11 de março de 2017 às 0:00

A escuta que transfigura

"Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o" (Mt 17,5). "A aparição do verbo 'escutar', nesse momento preciso, ilumina não só o sentido central do episódio da Transfiguração, mas também nos abre perspectivas sobre o significado do próprio escutar. A escuta não se faz apenas com o ouvido exterior, mas com o sentido do coração; é atitude, é inclinar-se para o outro, é disponibilidade para acolher o dito e o não dito, o entusiasmo da história ou o seu avesso, a sua dor. A escuta é a experiência que vai arrancar do coração dos discípulos o escândalo da cruz. Não há fé que não nasça da escuta, de uma escuta profunda, de uma escuta até o fim. A escuta é o espaço onde Jesus pode atuar, curando-nos do nosso temor. Há uma escuta sem a qual não conseguimos viver, e essa é a verdadeira escuta. A opção por seguir Jesus não nos poupa do sofrimento: ela nos dá a capacidade de vivê-lo na confiança. E isso provém do enraizamento na escuta. É isso que a obediência, como atitude evangélica, significa" (A Mística do Instante - José Mendonça, pag. 107-111).
Como centro da narrativa da Transfiguração de Jesus, está a declaração de Deus: "Este é o meu Filho amado, nele está  meu pleno agrado: escutai-o"(Mt 17,1-9). O imperativo "escutai-o" enfatiza a perfeita relação entre profissão de fé em Jesus como "Filho de Deus" e a atenção cuidadosa ao seu ensinamento. Por isso, os discípulos deverão compreender que o caminho para o seguimento de Jesus, implica o "descer da montanha" e assumir as consequências da missão, conforme o testemunho do Mestre, mesmo sabendo das dificuldades, da tentação do medo, do desânimo e da cruz.
Diante das ameaças e agressões à vida, Jesus nos diz: 'Levantai-vos. Não tenhais medo'; pois, na Transfiguração, Ele nos revela também o valor da vida, as belezas criadas por Deus na natureza, que devemos cultivar e guardar. Nele aparece a beleza do ser humano e de toda a criação que o envolve. É preciso escutar o Filho amado e segui-lo com fidelidade. A preocupação com a Ecologia humana e ambiental evidencia uma dimensão fundamental da fé. Através da Campanha da Fraternidade somos convidados a contemplar a obra criadora de Deus e escutar os apelos que vem de toda a natureza, de todas as criaturas, pois: "Seres humanos, natureza e ambiente, criação e sociedade, estão ligadas entre si: ecologia humana e ecologia ambiental caminham juntas. Essa visão ampla, atenta às 'relações' e não só ao ser humano entendido como 'centro', interroga-se sobre qual impacto o progresso econômico, as novas tecnologias e o sistema financeiro, têm sobre os seres humanos e sobre o ambiente; tendo a consciência de que nós, os humanos, não somos meramente beneficiários, mas guardiões das outras criaturas" (Manual da Campanha da Fraternidade, 256-257).
Diante de tantas desfigurações hoje, a nossa fé precisa de discernimento e amadurecimento de tal modo que, por meio dela, possamos ter um olhar transfigurado que nos faça enxergar a luz da Ressurreição para além das mazelas, dificuldades, provações, da cruz; e fazer valer assim, a força da transfiguração que o Espírito Santo nos dá, para que possamos ajudar a modificar, a transfigurar a realidade que nos cerca, como o descarte da vida, o não cuidado com a criação, com a casa comum e tantas situações de sofrimentos, injustiças, provocadas pela ação humana. Por isso, é preciso escutar o Filho amado do Pai.
Façamos a nossa parte. Sejamos alegres na esperança, fortes na tribulação e perseverantes na oração. Um bom final de semana a todos e até uma próxima oportunidade.


Por: Padre Airton Gusmão

 
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